Articulistas

‘Faça conhecida a sua indignação’


| Tempo de leitura: 3 min

Este é um pequeno fragmento da declaração do Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Geraldo Magela, direcionada aos cristãos a respeito dos últimos acontecimentos políticos que inundam os noticiários, principalmente do escandaloso e imoral, embora amparado pela legalidade, aumento de 91% dos salários dos parlamentares. Esta declaração não quer apenas que relembremos notícias já desgastadas e “passemos raiva” com elas, como as de que inúmeros eleitos (que gozarão deste aumento) estão envolvidos com os mais diversos crimes, mas não serão facilmente punidos pois ganharam imunidade ao serem diplomados esta semana e deleitam-se na praia da impunidade.

Dom Geraldo faz um convite à grande família cristã e a todo homem e mulher de bem para que esta indignação não se cale sufocada, que esta indignação torne-se a mais fecunda fé e esperança de justiça e, lembrando o apóstolo Tiago pregando acerca da fé e das obras, que esta fé seja manifestada e se torne luta. Recordo outra frase, que uma amiga me mostrou: “As soluções fundamentais dos problemas políticos e sociais só podem ser esperadas dos místicos.” Confesso desconhecer o autor desta frase, mas ela tem ecoado em mim.

Acredito que chegamos num ponto em que as alternativas conhecidas para gerir a sociedade já não respondem às expectativas de justiça e prosperidade humanas. Se por um lado as opções socialistas falharam quando sufocaram a liberdade ou quando permitiram que sua sociedade ficasse a margem do desenvolvimento tecnológico, por outro lado, temos o capitalismo que oprime e escraviza os mais pobres, que praticamente nega o direito de igualdade, que faz do ser humano não a finalidade do processo mas um meio para o acumulo de riqueza, e, assim, como pessoas de bem, não podemos simplesmente nos acostumar a ele só porque nos é oferecida a “liberdade” nos seus mais diversos semblantes, até a liberdade de possuir uma confissão religiosa ou de possuir “aquilo que queremos”. Liberdade essa que também é mentirosa, vivemos na verdade a “ditadura do capital”, pois somos escravos de um poder político regido antes pelo poder econômico. A prova é que candidatos que há anos se apresentaram como heróis do povo só foram eleitos quando se aliaram ao poder econômico, e hoje “devem” favores demais a quem os elegeu (que, em última análise, não foi exatamente o voto do povo, mas o que conquistou esse voto).

É hora de pensarmos política, rediscutirmos valores, criarmos alternativas de fato cristãs para a sociedade, e quando digo cristãs quero falar de espaço para a caridade, o respeito e ações de fato altruístas. Não basta elegermos candidatos “católicos” ou “evangélicos”, e continuarem amarrados por um modelo econômico injusto. Soluções novas para um mundo novo. Recriar a nossa democracia com base no bem-estar humano mais que no bem-estar do mercado.

No período que antecedeu as últimas eleições, o TSE veiculou propagandas com a frase “Você é o Patrão”, então, se somos o “patrão”, decisões como o aumento de salários devem caber também a nós e não aos favorecidos por ela. E, afinal, que nossa indignação se torne conhecida.

O autor, Jorge Carlos Rodrigues de Freitas, é mais um leitor do JC indignado com os políticos

Comentários

Comentários