Um ano que começa com a onipresença dos versos “Ela só pensa em beijar/ Beijar, beijar, beijar” tinha que se firmar em coisa boa. No Brasil ou lá de fora, diversos artistas fizeram seu trabalho direitinho e lançaram bons marcos para 2006; muitos só cumpriram tabela e ainda assim merecem entrar na lista; e outros... nem valem a pena baixar de graça. Abaixo, o JC Cultura publica uma lista de faixas facilmente encontráveis na Internet, indicações para ouvir 2006 com o que se destacou e o que apareceu de melhor.
Falando em onipresença, depois de Chico Buarque e seu mediano “Carioca” e Caetano Veloso e o ousado roqueiro “Cê”, quem merece mesmo o troféu é Maria Bethânia. Além de ter toda sua discografia relançada por três gravadoras, a baiana lançou os belíssimos “Pirata” e “Mar de Sophia”.
Marisa Monte foi ambiciosa ao lançar dois discos ao mesmo tempo, “Infinito Particular” e “Universo Ao Meu Redor”, ambos superlativos mas complementares, mas se garantiu nos palcos com sua nova turnê, que valorizou as canções ao invés da pose de diva. Ana Carolina, por outro lado, foi redundante no CD duplo “Dois Quartos”, que trouxe seu melhor e seus pontos fracos – quando se leva a sério demais.
Outras cantoras marcaram seu território: Céu, Érika Machado e Rebecca Matta, com a Orquestra Sônica, elevaram os ponteiros, assim como Zélia Duncan à frente dos Mutantes. Negra Li foi criticada por abandonar o rap em “Negra Livre”, mas o disco vale a audição pela produção R&B e pela mistura bem feita de sua raiz com o pop. Há ainda que se esperar a chegada de “Antônia” aos cinemas para firmar de vez essa cena R&Brasil.
Já Ivete Sangalo, nomeada pela revista “Rolling Stone” a rainha do pop brasileiro, reuniu 60 mil no Maracanã para gravar novo DVD e lançou um single na Internet. “Berimbau Metalizado”, no entanto, não tem pegada para manter o “furacão baiano” nas paradas de verão.
Voltando aos “meninos”: o Skank deu competente continuidade à celebração de Beatles + Clube da Esquina com “Carrossel”, que tem um punhado de faixas assobiáveis para o Ano Novo; o Moptop assinou com grande gravadora e tem tudo para ser a banda de 2007; e o Mombojó passou com louvor no teste do segundo disco com “Homem-Espuma”, recheado de boa música. Vale ainda destacar Zefirina Bomba, Bonsucesso Samba Clube, Superguidis e o radiofônico Canto dos Malditos na Terra do Nunca.
Internacionais
Uma canção para resumir 2006: “Crazy”, da dupla Gnarls Barkley. DJ Danger Mouse e Cee-Lo fizeram seu mix de hip hop e gospel do demônio para a “Hey Ya!” deste ano que está acabando. É aquela música que ninguém nem precisa fingir que não gosta – e se é para ser curioso, procure na Internet as grandes covers do Raconteurs e do The Kooks para ela. O disco da dupla, “St. Elsewhere”, ainda segura o nível.
Mesmo que não esteja no primeiro lugar, “Smile”, da britânica Lily Allen, também merece o pódio. Divertida, vingativa, safadinha, a cantora novata que ganhou projeção na Internet (mais uma) antes de lançar seu primeiro disco provou com “Alright, Still” que tem culhão. E o CD é presente perfeito para quem gosta de música pop.
Na mesma prateleira, ficaram acima da média Beyoncé e “B’Day”, resumo de tudo o que deu certo no primeiro disco e com o Destiny’s Child, ou seja, hits R&B quebra-pista; Christina Aguilera e sua aventura pelo jazz e blues dos anos 30 e 40 com “Back To Basics”; Fergie “Fergalicious”, a mina do Black Eyed Peas, comprovou ser o que move o grupo em “The Dutchess”; e o ex-“quero ser Michael Jackson” Justin Timberlake, que parece ter encontrado seu caminho com o “neopop” de “FutureSex/LoveSounds”.
Na rota do rock, Bob Dylan fez seu ótimo “Modern Times” figurar no topo de várias listas de melhores do ano. Mas Bob Dylan é para iniciados, nada de novo para um mundo não globalizado, ainda que à beira do apocalipse. Outros assim são o Pearl Jam, que teve um bom single, World Wide Suicide”, em meio a um disco de canções que só marcam os fãs da banda.
O Red Hot Chili Peppers é diferente. Mesmo com um CD duplo, eles recuperaram o melhor de “One Hot Minute”, os hits de “Californication” e a maturidade de “By The Way” e entregam uma coleção de canções de amor explosivas em “Stadium Arcadium”. Culpa da guitarra de John Frusciante, na maioria das faixas.
E o Racounteurs, projeto do midas Jack White com Brendan Benson (que também vale a curiosidade em seu trabalho solo), Jack Lawrence e Patrick Keeler, mostrou que os anos 70 ainda vivem e podem ser mais 2000 do que muita coisa pseudo-nova que aparece por aí.
Há boas novas, como o Panic! At The Disco, The Decemberists, o já quase-velho Arctic Monkeys e o combo I’m From Barcelona. Esse último vale destacar pela curiosidade: são 29 suecos com músicas de celebração. O disco “Let Me Introduce My Friends” é certamente um dos CDs do ano pela sonoridade indie pop deliciosa. Nessa gaveta, entram também The Pipettes e seu primeiro álbum de rock 60-00,
Entre os quase veteranos que chegaram ao segundo álbum, estão The Killers e o bom e “inspirado-em-U2” “Sam’s Town”; os purpurinados Scissor Sisters e “Ta-Dah”, mergulho na disco e no piano fervente de Elton John; e o Jet, brincando de ser Beatles e Oasis em “Shine On”. E o Audioslave reencontrou o prazer de sua estréia no terceiro disco, “Revelations”, no qual nenhum dos músicos parece ter vergonha de querer ser o Led Zeppelin.
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Frases
Mesmo os elogiados fizeram 2006 mais engraçado – às vezes, constrangedor. A gente segura Ana Carolina cantando “Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas/ Muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas”. Agora Caetano Veloso, com “Rocks”, merecia um pedala por “Você foi ‘mor rata comigo/ Você foi ‘mor rata comigo/ Você foi concreta e simplesmente/ Rata comigo demais”.
E apesar da música já ter saído das paradas, alguém pode explicar como é que os quadris de Shakira podem mentir? “Hips Don’t Lie”, com o mestre Wyclef Jean, bombou, mas a letra...