A fundação do PT ocorreu oficialmente no dia 10 de fevereiro de 1980. No entanto, a idéia de um novo partido, formado basicamente por sindicalistas, representantes das organizações de esquerda, do setor progressista da Igreja Católica e intelectuais, havia sido lançada um ano antes, no 9.º Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e Eletricitários do Estado de São Paulo, em Lins.
Foi nesse congresso que, pela primeira vez, foi citado o nome Partido dos Trabalhadores. Uma semana antes, uma reunião intersindical, realizada em Porto Alegre (RS), já havia cogitado a formação de uma nova legenda para fazer frente aos poderosos Arena e MDB, mas foi em Lins que o Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André lançou a semente que se transformaria mais tarde no maior partido de esquerda do Brasil.
O texto apresentado pelo sindicato dizia o seguinte: “Que se lance um manifesto, por este congresso, chamando todos os trabalhadores brasileiros a se unificarem na construção do seu partido, o Partido dos Trabalhadores”. A tese foi aprovada e anexada às resoluções finais do congresso, realizado no Colégio Salesiano, no Centro de Lins.
A escolha da cidade como sede do encontro foi casual, segundo Lúcio César Pires, 67 anos, presidente do Sindicato dos Bancários de Lins e Região na época. De acordo com ele, era comum os metalúrgicos escolherem cidades fora da Grande São Paulo para sediar seus congressos anuais.
O ano de 1979 marcou uma pequena abertura política no Brasil com a permissão para a criação de novos partidos e o retorno de alguns exilados, como Leonel Brizola, que preocupava mais os militares do que o próprio comunismo.
Outra testemunha ocular da história de formação do PT naquele ano foi o padre e teólogo José Oscar Beozzo, 65 anos, na época pároco da Igreja São Benedito. Ele conta que, ao fim da reunião, parte dos metalúrgicos que estava na cidade, entre eles Luiz Inácio Lula da Silva, foi até a quermesse que a paróquia realizava para comer churrasco e beber cerveja.
Beozzo não teve nenhuma participação na formação do PT em nível nacional, mas se esforçou muito para fundar o partido na cidade. A base do PT em Lins era formada basicamente por professores da Faculdade de Serviços Sociais, lideranças sindicais, cortadores de cana e pessoas das associações de bairro.
A fundação do PT nacional e local ocorreu quase que simultaneamente. Na avaliação do padre, as dificuldades que o PT tem encontrado para administrar uma cidade ou o País são praticamente as mesmas. Quase sempre a bancada de apoio é minoria dentro do parlamento. Na tentativa de aumentar esse apoio, o partido se vê obrigado a lançar mão de uma política de alianças que nem sempre agrada.
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Coerente
Apesar das deficiências, o PT, na opinião de Beozzo tem sido coerente com sua tradição histórica de defesa dos mais pobres. Segundo ele, tanto no plano nacional como local (Lins foi administrada pelo PT entre 1997 e 2004), o partido adotou um programa social sólido.
“A marca (do PT em Lins) foi de uma administração voltada para o social e para a periferia. Apesar dos protestos de que a cidade estava feia e abandonada, você ia conversar com as pessoas da periferia e elas diziam que tinham o que nunca tiveram”, relembra o padre.
No plano nacional, a situação se repete na avaliação de Beozzo. “Você pode criticar o fato do programa social (do governo Lula) ter uma cara mais assistencialista do que promocional, mas pela primeira vez nos últimos 40 anos, foi revertida a tendência de empobrecimento crescente dos pobres”, cita ele.
De outro lado, segundo Beozzo, houve um certo desencanto com o PT no poder ao ver alguns ideais do partido esquecidos, a aprovação de certos tipos de aliança, além dos problemas com a corrupção.