O tempo é implacável, tanto com o rosto de uma pessoa quanto com a fisionomia de uma cidade. Na medida em que os anos passam, aquilo que era familiar se torna irreconhecível para os moradores de um bairro. O campinho de futebol dá lugar a grandes armazéns, o pequeno córrego onde as crianças pescavam se transforma no canteiro central de uma grande avenida e a velha loja de doces fecha as portas para nunca mais abrir.
É assim em todo lugar, e em Bauru não podia ser diferente. Principal pólo de desenvolvimento da região, a cidade passou por transformações imensas nas últimas décadas. Em pouco mais de 20 anos os trens pararam de correr, o comércio local se expandiu e a população do município praticamente dobrou. O lugar onde, no início da década de 1980, viviam pouco mais de 180 mil habitantes, hoje conta com quase 360 mil habitantes.
Isso ajuda a dar uma idéia de como foram profundas as transformações ocorridas no dia-a-dia dos bauruenses. A cidade ficou muito diferente daquilo que era antigamente. Às vezes, chega a dar a impressão de que a memória de seus moradores está se desmanchando nessa atmosfera de constante novidade.
Por sorte, isso é mera aparência, já que a cidade conta com verdadeiros guardiães do passado dos bairros. São pessoas, que por razões financeiras ou afetivas moram há muito tempo em um mesmo lugar. Por desfrutarem desse privilégio, elas acabam se tornando verdadeiras testemunhas oculares da história do local onde vivem.
Conversando com Massato Yanaba, 58 anos, é possível se ter uma idéia de como foi a evolução do comércio da Vila Independência. Não, ele não é um historiador, é simplesmente o dono de uma auto-elétrica.
O fato, porém, é que ele presenciou dois momentos do bairro: um pujante, há cerca de 30 anos, quando a rua Felicíssimo Antônio Pereira possuía diversas lojas e vivia lotada de carros e gente; outro decadente, já nos dias atuais, em que o comércio do local praticamente deixou de existir.
Existem outros exemplos semelhantes espalhados pela cidade. Quando Magali Rodrigues Lázaro se recorda com saudades do trem que apitava próximo à sua casa, no Parque Bela Vista, está também se queixando da situação decadente em que se encontram atualmente as ferrovias que cortam a cidade.
É claro que esse estado de degradação não precisa de grande auxílio da memória para ser percebido; basta um olhar rápido sobre os trilhos enferrujados, que ele logo se põe à mostra. Pode ser. Mas o que dizer da pequena bicicletaria de “seo Nabor”, que se encontra fechada desde 2003?
Se Luzia Kamimura Matsumoto, a viúva (Nobor Matsumoto, dono do estabelecimento, faleceu em 2003), não tivesse preservado o prédio tal como era, talvez ninguém no bairro fosse capaz de se lembrar que no local funcionava a oficina mais freqüentada pelos garotos da Vila Independência.
Do mesmo modo, se não fosse por dona Eugênia Maria da Fonseca Minhoto Bologna, 67 anos, talvez os mais jovens nunca soubessem que, no final dos anos 60, as ruas do Parque União se transformavam em verdadeiros lamaçais em dias de chuva.
Poucos poderiam imaginar que uma parte do Jardim Vânia Maria era um verdadeiro matagal algumas décadas atrás. E de fato era. O aposentado João Paulino de Faria sabe disso e pode confirmar - afinal, ele construiu uma das primeiras casas da região, há cerca de 28 anos. Tanto tempo, tantas histórias, e ele não tem um pingo de vontade de se mudar de lá.
Afinal, Faria se tornou quase que uma referência no bairro. É respeitado por todo mundo e tem dúzias de amigos espalhados pela vizinhança. As pessoas o conhecem de longe e são capazes de indicar com facilidade onde fica a sua casa. Ele poderia até ser eleito para algum cargo público, mas até hoje nunca quis se candidatar. Um sortudo, dirão alguns. Que nada. Essas regalias são reservadas apenas para os legítimos guardiões da memória e demoram muito tempo para ser conquistadas.