Bairros

Mudar para outro bairro, nem pensar

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Você gostaria de se mudar para outra casa? Comum para a maioria das pessoas, a pergunta soa quase como uma ofensa para alguém que mora há muito tempo em um mesmo bairro. Em geral, quem se encontra nessa situação desenvolve uma ligação muito forte com a vizinhança, da qual é praticamente impossível se desvencilhar.

Diamantino Ribeiro Coelho, 74 anos, e a esposa Maria Emília de Jesus Oliveira, 70 anos, bem que tentaram. Eles vivem há mais de 40 anos no mesmo imóvel, na Vila Independência. “Na verdade, a gente se mudou para vários lugares. Fiquei durante um tempo no Terra Branca (bairro das proximidades), depois fui para São Paulo. Mas essa casa aqui a gente guarda de coração”, explica Maria Emília.

A justificativa para a predileção é nobre: a residência foi a primeira construída pelo casal no Brasil. Coelho e Oliveira são portugueses, naturais de Leiria, uma pequena cidade localizada nas imediações de Fátima, Portugal.

Os dois se conheceram no vilarejo, namoraram e se casaram. Passados dois anos, Coelho resolveu tentar a sorte no Brasil. “Saí de lá por ilusão. Ouvi dizer que as coisas estavam indo bem por aqui. Resolvi arriscar”, explica.

Ele deixou a esposa e dois filhos pequenos em Portugal. Primeiro Coelho foi para Arapongas, no Paraná, mas não gostou da cidade. “Aquele lugar é estranho: quando chove tem muito barro, quando seca é só poeira”, reclama.

Ele não sabe dizer direito o que o trouxe a Bauru. “Sei que vim de trem”, brinca. Ele trabalhou como servente de pedreiro, balconista e, por fim, comerciante. Nesse meio tempo, ele voltou a Portugal e buscou a família.

Depois veio a casa na Vila Independência, a mesma onde eles vivem até hoje. “Foi em 1962, só que era uma construção bem pequena”, relembra Coelho. Desde então, o casal precisou se mudar algumas vezes do local. “Mas somos iguais os passarinhos, que saem, constróem outro ninho, mas sempre voltam para o verdadeiro lar”, diz ela.

A essa experiência - de voar para outros bairros – a aposentada Marina Fábio, 78 anos, nunca teve. Desde que nasceu, ela vive na mesma residência, nos Altos da Cidade. “Meu pai construiu essa casa logo depois de se casar”, explica.

Ele se chamava João Fabis - por erro do escrivão que a registrou no cartório, o sobrenome de Marina acabou sendo Fábio. Solteira, ela está acostumada a viver sozinha. “Agora tem um sobrinha me faz companhia”, explica.

Apesar de sua independência, os irmãos já andam preocupados com seu bem-estar. “Eles querem que eu vá morar com eles”, afirma. Até agora, Marina não quis aceitar o convite. Ela dirige, faz compras, viaja para visitar familiares.

“Não tem necessidade de eu ir para lá. Estou me virando muito bem por aqui”, afirma. Ao contrário dela, Eugênia Maria Fonseca Aparecida Minhoto Bologna, 67 anos, já não pode desfrutar de uma existência tão independente.

Ela sofre de problemas de locomoção e precisa de cuidados constantes dos filhos. Por sorte ela não foi obrigada a abandonar o Parque União, pois a família vive lá. “Se tivesse que me mudar, não agüentaria”, garante. Bologna é uma das primeiras moradores do bairro. “Quando cheguei aqui não havia asfalto nas ruas. Quando chovia, quem estava do lado de fora não entrava e quem estava do lado de dentro não saía”, lembra.

Líder comunitária durante várias décadas, ela se acostumou a brigar pelo lugar onde vive. Lutou tanto, que acabou se apaixonando. “Me chamam de bairrista. Sou mesmo. Amo esse lugar, faço tudo por ele. O Parque União foi uma porta para a felicidade que Deus me abriu”, afirma.

Comentários

Comentários