Quando a moradora do Altos da Cidade Marina Fábio era jovem, tinha o costume de passar horas conversando com os vizinhos no período da noite. “Fazíamos bolinhos, pipoca, doces, tomávamos refrigerantes juntos. Naquele tempo, costumávamos passar muitos momentos agradáveis juntos”, relembra.
Hoje, aos 78 anos, ela quase não sai de casa depois que escurece. Os tempos mudaram muito e passaram a requerer novos hábitos da parte das pessoas. Na época em que Marina era criança, os índices de criminalidade eram bem menores em Bauru.
Apesar de estar ciente disso, ela considera que, em parte, “as pessoas de bem” também são culpadas pelo sentimento de medo que vem apoderando da sociedade de uns tempos para cá. “Saímos das ruas e deixamos elas livres para os bandidos”, diz.
Para Marina, o erro fatal da população foi haver se trancado no interior das residências, como se isso pudesse, por si só, resolver o problema da violência. “É inocência pensar desse jeito. Não adianta se esconder atrás de uma grade de ferro pois, se o ladrão quiser, ele arromba e invade”, observa ela.
Marina vive há 78 anos na mesma casa e nunca quis se mudar do local. Ela se vira sozinha: dirige, faz compras, viaja. A aposentada gostaria de poder visitar os vizinhos com uma maior freqüência, mas isso anda meio difícil pois, como ela própria costuma dizer, “atualmente todo mundo só quer saber de passar os dias preso em casa vendo televisão”.
O jeito é telefonar para saber notícias dos amigos. Por enquanto, Marina não vê perspectivas de recuperar a existência livre do passado, quando os vizinhos podiam ficar até tarde batendo papo sentados na calçada. Mas mesmo assim ela tem alguma esperança. “No dia em que as pessoas ocuparem ruas com coisas boas, o mal não tomará conta das nossas vidas”, acredita.