Uma onda de corrupção, do tamanho de uma ‘tsunami’, vem assolando o País. Corrupção sempre existiu, mas por que está tão disseminada assim? A corrupção que poderia ser considerada ‘normal’ é aquela oriunda das pessoas de mau caráter, egoístas, que vêem o mundo como se fosse feito só para elas. É uma fração diminuta da sociedade e que vive se esquivando da vigilância social. Essa sempre existirá, mas e essa, agora, abusiva, que afronta a sociedade e nem se incomoda da exposição nos jornais, nas revistas e na TV? Até parece que os corruptos estão competindo com artistas e modelos para ocupar espaço na mídia. É sonegação bilionária por grandes organizações, é fraude no INSS, é superfaturamento em licitações públicas e, mais grave ainda, pela sua natureza, a criação de Organizações Não-Governamentais - ONGs para ministrar cursos inexistentes com verbas dos trabalhadores ou para embolsar doações de entidades filantrópicas, como a de combate ao câncer.
A corrupção costuma se avolumar nos dois extremos do controle social pelo Estado. No regime ditatorial, opressivo, ela se desenvolve como uma forma de reação para compensar as perdas de liberdade e do patrimônio confiscado pelo governo. Como as pessoas se sentem espoliadas e indefesas, porque as leis garantem a opressão, não há outra saída a não ser o suborno dos agentes do Estado. A História vem documentando o fim dos regimes duros, de direita ou de esquerda, como conseqüência da corrupção alastrada na máquina governamental. É uma forma de manutenção do poder pela concessão ilegal e injusta de benefícios.
No outro extremo está o regime permissivo, de frouxidão do controle social. A impunidade e a falta de seriedade e de respeito à coisa pública e aos bens e direitos particulares criam um clima propício a que as pessoas procurem se defender usando as mesmas armas de seus espoliadores, o Estado ou os particulares. Os de caráter mais firme resistem, embora vejam com mágoa e tristeza, e às vezes com revolta, a orgia com o dinheiro público e o sufoco da sociedade pela carga insustentável dos impostos e pela deficiência do serviço público naquilo que é essencial, a saúde, a educação e a segurança.
Organizações não-governamentais sem finalidades econômicas são antigas, como associações classistas, como clubes recreativos ou como entidades filantrópicas ou culturais. Após a 2.ª Grande Guerra surgiram entidades de voluntários em defesa de direitos humanos, em conseqüência dos efeitos do nazi-fascismo, e pela preservação da natureza, degradada pela industrialização e aumento das aglomerações urbanas. A expressão dessas entidades como ONGs foi cunhada em Ata da ONU de 1946, mas aqui no Brasil começou a ser difundida na década de 1960.
Com trabalho voluntário e finalidades nobres, as ONGs foram envolvidas por uma aura de simpatia e a expressão passou a cobrir a maior parte das organizações sem fins lucrativos, merecendo o apoio da população e do governo. Esse fato ensejou a intrusão dos espertos de mau caráter, que encontraram nelas o filão de ouro da sua garimpagem espúria. Sob a capa protetora do beneplácito social vêm sendo criadas organizações criminosas, algumas vinculadas a organizações internacionais, que movimentam quantias enormes de dinheiro público ou de doações, em benefício de interesses escusos ou de grupos criminosos. E o governo, por ter parte de seus agentes envolvidos nessa trama, perdeu o controle. Como foi assinalado em reportagem da revista Exame, muitas ONGs são verdadeiras e indevassáveis ‘caixas pretas’. Enquanto isso, ONGs autênticas, com finalidades filantrópicas, culturais ou de defesa do meio ambiente vivem à míngua de recursos.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru