Bairros

Região do Jaraguá: À beira do precipício

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Pior que os buracos das ruas são aqueles que invadem as casas das pessoas. Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil Estadual, garante que as grandes erosões representam um problema grave na região noroeste da cidade. De acordo com ele, 68 casas do Parque Jaraguá (zona noroeste de Bauru) localizadas nas encostas de barrancos estão prestes a desabar.

De fato, a situação no local é de perigo iminente e muitos moradores têm abandonado o local. “A área fica às margens de um riacho e não poderia ter sido ocupada com moradias. Por outro lado, na medida em que a erosão avança, as pessoas ficam com medo e acabam deixando o local. Pelo visto, a própria natureza está se encarregando de limpar aquela parte da cidade”, argumenta.

Brito não deixa de estar certo, pois a erosão existente no Parque Jaraguá avançou vários metros nos últimos anos. Aterrorizados, alguns moradores preferem sair de vez do bairro, indo morar em áreas da cidade menos sujeitas a catástrofes naturais.

A filha da doméstica Roseli Nunes da Silva, 45 anos, não quis sequer permanecer em Bauru. Ela foi viver com uma irmã em Ribeirão Bonito (município do Interior de São Paulo). A mãe não teve a mesma sorte, pois não dispõe de recursos para pagar aluguel em outro local. “Fico aqui, na beira do barranco, morando de favor na casa dos outros”, reclama.

Ela não é a única que tem de enfrentar o perigo devido à falta de dinheiro. A dona de casa Márcia Regina da Silva Lopes, 40 anos, mora há cinco anos na encosta do barranco existente no bairro. Convivendo com a morte tão de perto, ela passa o dia inteiro preocupada.

De uns tempos para cá, o medo dela tem sido maior. “A coisa ficou pior depois que parte da minha casa desabou, em 2004”, conta ela. Na ocasião, o banheiro, a varanda e a lavanderia do imóvel foram tragados pelo buraco.

A tragédia poderia ter sido ainda maior, já que uma das filhas de Lopes usava o banheiro no momento do desabamento. “Eu estava parada com os pés na porta quando ouvi um rangido. Comentei com Érica, minha irmã: ‘esta parede deve estar com problema’; e continuei andando. De repente, tudo começou a despencar”, conta Thaís, 18 anos, a sobrevivente.

A cratera já engoliu quase 20 metros do terreno. “Antigamente tinha até um quintal com horta e árvores frutíferas”, lembra Lopes. Atualmente, apenas um pé de urucum ainda resiste, agarrado à encosta do precipício. Menos de três metros separam o abismo daquilo que restou da casa e, mesmo assim, Lopes não quer deixar o local. “Se eu sair daqui, vou morar aonde?”, questiona.

____________________ Santa Edwirges: Sumiço

Nem só da enxurrada nascem os buracos. Em alguns lugares de Bauru, as crateras contaram com ‘auxílio providencial’ da prefeitura para nascer. Laurinda Pereira de Andrade mora há dez anos no Parque Santa Edwirges, bairro da região noroeste de Bauru, cujas ruas ostentam pomposos nomes advindos da antigüidade clássica, tais como Marte, Licurgo ou Tróia.

Ela mora mais precisamente na quadra 4 da alameda Cartago. O lugar nunca foi muito parecido com a extinta cidade africana, que milênios atrás chegou a disputar com Roma o domínio das regiões banhadas pelo Mar Mediterrâneo. Em todo caso, a situação do local tornou-se ainda pior depois que o Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru retirou a maior parte do asfalto que cobria a rua para executar algumas obras de reparo na rede de esgoto.

“Eles trocaram os canos de metal por tubos de concreto”, lembra Andrade. Na época, cerca de quatro anos atrás, a dona de casa Márcia Carvalho estava se mudando para o bairro. “Fiquei até feliz, pois iria morar em lugar que tinha até rede de esgoto nova”, lembra.

Só que a alegria logo se transformou em decepção: dias, meses, anos se passaram, e nada da prefeitura recapear a rua. Desde então, a quadra 4 da alameda Cartago passou a ser mais uma das inúmeras ruas de terra esburacadas existentes no bairro. “Acho que nunca mais vão asfaltar esse pedaço”, lamenta Carvalho.

____________________ Trincheiras

As complicações provocadas pelas chuvas dos últimos dias têm sido tantas na cidade que em alguns bairros de periferia as pessoas assumiram quase que uma postura de guerra para se proteger das valas que infestam as ruas.

O pedreiro Jair Vicente, 40 anos, morador do Parque Santa Edwirges (zona noroeste de Bauru), foi buscar exemplo nas antigas trincheiras de guerra para evitar que uma cratera se formasse em frente à sua casa, localizada na quadra 5 da alameda Júpiter.

Na semana passada, ele usou 16 sacos de areia para montar barricadas em frente ao imóvel. “Na medida em que a enxurrada desce, a terra vai ficando parada neste lugar. Dessa forma, dificilmente um buraco irá aparecer aqui”, acredita.

Esta é a segunda vez que ele lança mão do artifício, para não se tornar vítima das crateras causadas pela enxurrada. “Primeiro eu usei umas tábuas para segurar a água. Durou dois anos, até que foi bastante, depois apodreceu”, conta.

O trabalho é cansativo, mas ele não reclama. E nem poderia, afinal, esse esforço certamente evitará que algum dia ele atole ao tentar entrar de carro na garagem da casa. Além disso, a montagem das barricadas permite a Vicente reviver passagens marcantes da época da juventude. “Isso é parecido com o tempo em que eu era moço em Minas Gerais e tinha de carregar sacos de café nas costas para ganhar a vida”, relembra.

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