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Italiano


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Era assim que muitos amigos o chamavam. Mas, também, Flavião podia ser uma outra forma carinhosa de tratá-lo. Seus pais, Antonio e Amália, oriundos da Itália, o batizaram de Flávio Antonio De Angelis, único “maschio” entre os cinco filhos do casal.

Conheci o Flavião no saudoso Instituto de Educação Ernesto Monte, não éramos da mesma classe, mas o basquete nos aproximou e permitiu que tornássemos amigos. Nesse tempo ele trabalhava, se não me falha a memória, no IAPFESP, uma espécie de caixa de aposentadoria e pensões dos ferroviários e servidores públicos federais, o avô do atual INSS. Com seus passos largos, característica de seu andar, ele descia a pé do Instituto de Educação, passava na sua casa na Monsenhor Claro, apanhava o lanche que seria seu almoço e apressadamente rumava para o começo da rua Azarias Leite, onde se situava seu trabalho. À noite era para o namoro com a Malú, mas sobrava tempo para o basquete, o curso de Direito na ITE e, depois de algum tempo, quando descobriu o jornalismo, o Diário de Bauru, sua coluna “Panorama” e algumas reportagens. O Italiano não foi um craque das quadras de basquete, mas sua garra, dedicação e entusiasmo têm capítulos escritos na história desse esporte em Bauru. Quando não podia ir aos Jogos Abertos ou Regionais, fazia falta. Vibrava com o esporte de uma forma geral. Quando Noroeste e Palmeiras se enfrentavam sempre torceu pelo Norusca, por mais que o Verdão precisasse dos pontos para uma possível disputa de título.

No início de 1970 o Diário de Bauru era na Azarias Leite, logo abaixo da Rodrigues Alves, e a conversa noturna com Zarcilo, Miziara, Brisolinha, Célio Gonçalves, Sampaínho e outros, regada a café no Juca Pato, depois Fran’s, tornava a jornada cotidiana do idealista Flavião menos cansativa. Nessa altura ele já pensava em família, esposa, filhos, etc. Assim, visando melhores condições financeiras deixa o jornalismo e com seu amigo de toda a vida Wellington Sandim vai para a Petróleo Ipiranga. Trabalha em Bauru e depois em Ribeirão Preto, onde cultiva em seu gabinete uma foto de Bauru. Não vê a hora de voltar. Ficar junto aos filhos, Paola e Giuliano, enfim, sacrificar menos a família. Conta as horas para a aposentadoria. Retorna à Sem Limites e envolve-se com o cotidiano de Bauru outra vez, através do jornalismo radiofônico e impresso. Os tempos são outros, bem diferentes daqueles onde parecia que o futuro estava distante o suficiente que permitisse uma preparação para enfrentá-lo. Hoje o futuro é agora. Matar um leão por dia é pouco. Nem por isso perdeu o entusiasmo, ao contrário, adorava desafios.

O Raduan, amigo comum, tem pendurado no escritório no fundo de sua loja, na Batista, um manuscrito do cantor Jamelão que diz o seguinte: “uma vida bem vivida é vida toda a vida”. Não sei se a autoria é do mesmo e nem sei a que “vida bem vivida” se refere o pensamento. Se for aquela vida vivida com o coração, podemos dizer que o Flávio teve uma vida assim. Se a inspiração poética teve como base o trabalho, a preocupação com os outros, a prática do bem, a busca da verdade, o sentimento de ajuda e solidariedade, o amor à comunidade em que viveu, é mais do que certo afirmar que o Italiano viveu uma vida bem vivida. Mas, isso não justifica seu desaparecimento precoce aos 65 anos. É muito pouco tempo de vida, mesmo que bem vivida, para um talento desses. Vai fazer muita falta, para os seus e para a comunidade.

Certa vez, após uma cirurgia delicada que ele havia sofrido, conversávamos sobre a existência do homem e sua duração. Não conseguimos concluir o porquê do futuro estar se mostrando, a cada dia, tão imediato. Seria o tempo que nos restava de vida o fator determinante desse sentimento? Ou, quem sabe, a realidade era essa mesmo e agia tal qual um podão de canavieiro ceifando o tempo existente entre o hoje e o amanhã, tornando nosso dia-a-dia mais angustiado? Não foi possível concluir a conversa. Certamente, um dia vamos concluí-la. Que Deus o tenha.

O autor, Tidei de Lima, é ex-deputado e ex-prefeito de Bauru

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