Alimentados, milhões partem agora em busca de melhoria no cardápio. Como sabemos, tudo na vida obedece a uma certa ordem natural. O homem sempre quer mais do que tem e, certamente, os beneficiários do programa Fome Zero começarão a pedir algo mais sofisticado.
Com certeza, enquanto alguns milhões entraram no projeto, iniciando com o cardápio simples, normal, outros, que já passaram desse estágio, e irão querer uma mistura mais substanciosa, uma carninha, por exemplo. A vida é sempre assim.
Se alguém anda de avião pela primeira vez, mesmo enfrentando as agruras de um apagão e um lanche pífio, com certeza não vai mais querer andar a cavalo ou de carro velho. Vai sim tentar voltar ao avião, subir até as nuvens, e esperar que as coisas melhorem: que o vôo não atrase ou que o lanche venha mais caprichado.
Entretanto, vale ressaltar um importante aspecto: o projeto Fome Zero deu certo e seus frutos já foram colhidos: as eleições passadas atestam e dão conta de seu resultado maciço e positivo.
Como deu certo, a fórmula será mantida, o projeto vai ser ampliado. É possível que outros copiem a idéia, e assim o sucesso será repetido. Quem sabe surgirão programas mais avançados, cardápios mais refinados... Alguém, talvez, venha a lançar o Projeto Filé Mignon ou o Projeto Caviar.
O velho vale-refeição, de diversos valores de rosto, que alimenta a maioria dos executivos e integrantes da classe média do País, que diariamente montam suas filas às portas de selfs-services, é agora transformado, com sucesso, no vale Fome Zero, uma refeição simples, para quem simplesmente não comia nada. Por que criticar? Por que deu certo?
Como diz o ditado popular “O peixe morrer pela boca”. Em principio, acredito, o peixe nunca sentiu fome, mesmo porque o ambiente em que circula é rico em vidas e substâncias alimentícias, até, óbvio, o dia em que vier a servir de alimento para um peixe maior. O círculo vital é assim mesmo: uns são alimentos de outros.
E o mais importante, para o humano: a comida é substancial e imprescindível: com fome ninguém trabalha, ninguém, pensa. Entretanto, após sentir o gosto do alimento, o alimentado, tendo suas necessidades básicas, atendidas, sempre buscará experimentar outros sabores, enriquecer seu paladar, melhorar seu cardápio.
Em um primeiro estágio, uma simples melhora, um pouco mais de tempero no feijão e as homenagens e benesses a quem o proporcionou. Em um segundo momento, o alimentado, já saciado, vai querer mais.
Aqui, residem duas grandes e importantes questões: a primeira, até quando os beneficiários do Programa Fome Zero vão se contentar com o que lhes é fornecido e manter a fidelidade a quem lhes alimentou? A segunda, será que eles vão admitir que alguém venha a representar aquele que os alimentou, quando efetivamente tiveram fome, ou vão exigir de um novo alimentador, comida mais sofisticada?
Isto somente o tempo dirá. Por enquanto, vamos homenagear a idéia e o sucesso político do projeto.
O autor, Francisco Antonio Feijó, é presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais - CNPL - e da Federação dos Contabilistas do Estado de São Paulo - Fecontesp