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A alma das frutas


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O que uma maçã representa no imaginário popular é uma enormidade. Desde a fruta proibida, como ela ficou conhecida, até como símbolo de Manhattan, aquela dentada que tira um naco deixando a famosa marca da mordida, a maçã é mais que uma fruta: é o próprio desejo proibido.

Diante de uma melancia, nos resta apenas a dúvida de quanto poderemos comer, porque o tamanho das sementes nos impõe uma superioridade de tanta polpa, aquosa e leve no início, que o mínimo que podemos fazer é lembrar da gula da Magali dos gibis e lambuzar os lábios mesmo, sem dó.

Jabuticaba é bom de chupar no pé, porque ainda que sem lavá-la, rende mais e não dá tanto trabalho do tira daqui, põe ali. E melhor que só dá no Brasil e o ano todo.

Sempre achei a pitanga uma fruta muito metida a besta. Ela sabe que é de um sabor exótico e inolvidável. Por isso se faz de difícil, se nos apresentando com muito mais caroço que carne, fazendo-nos seus reféns a manipular uma enorme quantidade delas para nos sentir saciados. Ah, essas pitangas...

Fiquei com medo da carambola quando soube que ela é um veneno para os rins. Não acredito que por detrás daquela geometria saborosa, num dodecaedro perfeito e de dar água na boca, havia uma fazedora de pedras que podem entupir nossos ureteres e inchar os minúsculos cálices renais que possuímos, com dores que não desaparecem mesmo com todos esses lados e ângulos de fruta quadrada que é, para que se ache a posição em que tais cálculos parem de se mover, livrando-nos delas, as dores terríveis.

Quando fiquei com vontade louca de comer mamão, ao chegar perto de um devorei-o inteiro, sem parcimônia e fiquei anos sem poder ver aquela fruta adocicada e laxante. Já vi gente fazer o mesmo com jaca. Foi demasiado, mas o sujeito conseguiu excomungá-la: um exagero. Frutas esquisitas como gabiroba, lichia, seriguela, marolo, são de uma delícia incomum, como é incomum encontrá-las. Da beleza de suas formas à doçura de suas polpas, não podemos esquecer de nobrezas vegetais e coloridas como o belo morango, o tímido caju, o rude abacaxi, que lotam nossas cestas na quitanda.

É de domínio público que maracujá é bom quando está murcho e que laranja madura, na beira da estrada, tem bicho ou a laranjeira está infestada de marimbondo: grandes músicas, maiores sabores.

Uma outra cesta pode vir lotada de bananas safadinhas ou com voluptuosas goiabas e, entre elas, obrigatórias laranjas mais tangerinas, formando um mosaico irrepreensível, que faria feliz qualquer aluno do curso de pintura, na aula de natureza morta.

No Interior de São Paulo, o jambolão ou garrafinha é a fruta promíscua e fácil, encontrada nas ruas com abundância, sendo que a prostituta no sul do país, a habitar gratuitamente avenidas e alamedas, pra quem quiser ou chegar primeiro, é a singela ameixa – quem diria.

Descontruindo tudo, informo que a fruta que mais gosto - porque é misteriosa e provém de uma mistura - é a manga comum (espada), de vez, com sal...

O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros “O Sonho: Crônicas Escolhidas” e “Os caçadores de tirisco”

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