São Paulo - A Polícia Federal (PF) prendeu ontem em Valinhos (85 quilômetros de SP) o empresário libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, 52 anos, sob a acusação de liderar um dos maiores esquemas de tráfico internacional de drogas já mantidos no Brasil.
Batizada de “Operação Kolibra” (conexão Líbano-Brasil), a ação da PF ocorreu simultaneamente em seis Estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ao todo, foram emitidos 31 mandados de prisão contra pessoas acusadas de ligação com a organização criminosa que, segundo as investigações de quase dois anos da PF, comprava grande quantidade de cocaína em países como Bolívia, Colômbia e Peru e as revendia na Europa e no Oriente Médio. Além de Nasrallah, outras 18 pessoas foram presas - 16 delas em São Paulo.
No Mato Grosso do Sul foram presos Paulo Salinetti Dias, acusado de ser o segundo homem da organização, e o filho dele, Telinas Dias. Em São Paulo, dois aviões (um deles de médio porte), 15 carros (sendo nove de luxo e alguns até blindados) foram apreendidos, além de R$ 75 mil, US$ 15 mil e cerca de 90 jóias. Um piloto de avião acusado de buscar a cocaína nos países produtores e trazê-la para o Mato Grosso do Sul e interior de São Paulo, onde pousava em pistas clandestinas na região de Piracicaba (162 quilômetros de SP) e Campinas (95 quilômetros de SP), também foi preso pela PF no Mato Grosso do Sul.
Em São Paulo, o policial federal Kleber Luís Quilhões foi preso e acusado de ter realizado uma prisão a pedido de Nasrallah. Um policial civil também está sendo investigado. A investigação da PF brasileira foi desencadeada, em 2005, depois que a Polícia Federal da Alemanha descobriu e enviou informações ao Brasil sobre uma rota internacional de tráfico de drogas coordenada por libaneses que vivem no País.
Nos últimos dois anos, em ações na Bélgica, Espanha e Portugal, 54 pessoas acusadas de ligação com a organização criminosa de Nasrallah foram presas. Numa das ações, em julho de 2005, sete brasileiros foram presos a bordo de um pesqueiro com bandeira brasileira, perto das Ilhas Canárias, na Espanha, transportando cerca de 2,5 toneladas de cocaína pura. O esquema comandado por Nasrallah, segundo o procurador da República Rodrigo Fraga Leandro de Figueiredo, consistia em traficar cocaína em barcos, com embarcações que saíam clandestinamente do Pará, São Paulo e Rio de Janeiro e também com o aliciamento de funcionários de companhias aéreas e de navios. Em alguns casos, a cocaína ia em containers com frutas.
Vida de sheik
De acordo com o delegado da PF Fernando Antonio Bonhsack, com o dinheiro obtido com o tráfico, Nasrallah - também suspeito de ter atuado como mercenário durante a guerra civil no Líbano e de mandar recursos financeiros para o grupo extremista islâmico Hizbollah - levava uma “vida de sheik” no Brasil. “Em algumas escutas telefônicas, o Nasrallah é flagrado interrompendo as negociações de droga e dizendo que estava no horário de realizar suas orações. Como pode isso?”, disse o delegado Bonhsack, que também investigará o libanês por lavagem de dinheiro. Na mansão em que Nasrallah vivia em Valinhos, segundo o delegado, havia uma banheira avaliada em US$ 60 mil, além de detalhes em ouro nas paredes de mármore.
Defesa
O advogado Hélio Bialski, defensor do libanês Joseph Nour Eddine Nasrallah, foi procurado na tarde de ontem em seu escritório, mas, de acordo com a funcionária que atendeu a reportagem, “ele estava em audiência e só iria falar amanhã” sobre a prisão de seu cliente. A reportagem também não conseguiu falar com nenhum parente de Nasrallah que, em 2002, teve um pedido de extradição feito pelo governo da Alemanha e não deixou o Brasil por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Assim como acontece hoje no Brasil, Nasrallah também foi acusado pelo governo alemão de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. Os outros presos ainda não têm advogado de defesa.