No início de O dia da criação, o inesquecível poeta Vinícius de Morais declara que “a vida vem em ondas, como o mar”. Síntese genial da condição humana, que mais tarde seria reaproveitada, com pouco brilhantismo, por Lulu Santos em uma composição (Como uma onda) que se pretende uma espécie de aula de dialética para principiantes.
O jornalismo crítico, que incomoda os poderosos, também vem em ondas, como o mar. Uma realidade que pode ser constatada no Brasil e em outras partes do mundo.
Uma rápida olhada nos jornais, revistas e telejornais brasileiros, no segundo semestre de 2005, daria, ao observador, a certeza de que a imprensa, exercendo o tão aclamado “quarto poder”, acabaria por derrubar o presidente da República. Os escândalos produzidos pela cleptocracia governamental e a inapetência administrativa eram expostos com precisão cirúrgica pelos órgãos de mídia. Mas, no início de 2006, os fatos clamorosos são substituídos por pesquisas de opinião, forjadas sob encomenda pelas grandes corporações midiáticas: os acontecimentos do mundo real são varridos para as páginas internas, no final do caderno, enquanto as estatísticas eleitorais se transformam em manchetes. Reeleito o presidente e após um pequeníssimo armistício, eis o governo, de novo, sob o fogo do jornalismo investigativo.
Nos EUA, o fragilíssimo governo de George Walker Bush vergava sob o peso das críticas de toda a grande imprensa. Após 11 de setembro de 2001, todos esqueceram que o presidente é preguiçoso, fanático e ignorante. Os clamores nacionalistas, sem qualquer defecção entre as grandes corporações de mídia, levaram às sanguinárias aventuras imperialistas no Afeganistão e Iraque e o Jorginho Bush à reeleição. Passou-se mais de três anos até que os jornais percebessem que os ataques contra o World Trade Center foram perpetrados por um determinado bando de terroristas e não pelo consentimento explícito de todos os cidadãos do Afeganistão ou do Iraque. Só agora há quem perceba que os EUA não têm o direito de bombardear cidades e matar civis.
Muito bem: o jornalismo investigativo vem em ondas, como o mar. Cabe, então, a pergunta: por que é assim?
Confesso que, ao buscar entender porque existem ondas no mar, percebi que a resposta não é simples. As ondas jornalísticas devem ser de explicação ainda mais difícil, o que não pode servir como desculpa para que se desista de buscar uma solução.
Arrisco afirmar que o jornalista, como trabalhador e intelectual, está sempre investigando e produzindo informações fidedignas. Afirmo, também, que o trabalho individual dos jornalistas é norteado pela ética. É a ação digna e ética dos jornalistas que, em última análise, confere credibilidade às grandes corporações onde eles trabalham. Aparentemente as grandes empresas midiáticas capitalizam esse fluxo de credibilidade para, quando se aproximam os grandes momentos das decisões nacionais, utilizar a credibilidade acumulada em favor de determinadas opções políticas que favorecem o conservadorismo e o processo de acumulação de capitais.
Parafraseando Nelson Rodrigues: os jornalistas produzem vários artigos eticamente corretos; as corporações midiáticas acumulam a produção ética dos jornalistas para, com ela, construir um grande bordel...
O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela