Tribuna do Leitor

Não desista!


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Amanheceu, mas você prefere continuar na cama; não possui força suficiente para levantar-se e sair do quarto, da casa, e enfrentar os problemas que o esperam. À noite, você não conseguiu dormir, nunca teve insônia, mas foi impedido de relaxar; sempre que fechava os olhos, ouvia barulhos ensurdecedores, vindos da cabeça, e via imagens de momentos tristes, angustiantes. Os fantasmas da preocupação o assombravam, rodopiando em sua frente, exaurindo o resquício de força que ainda possuía. “Não agüento mais!”, você disse em voz alta, querendo desistir de tudo, inclusive de você mesmo. Àquela altura, a solidão corroía seus sentimentos, e, mais que estar só, você era só, não tinha com quem conversar, dividir os problemas, ouvir conselhos e receber o calor reconfortante de um abraço; você olhava-se no espelho e o reflexo não era o seu, era de alguém com os cabelos desgrenhados, os olhos inchados de tanto chorar, o rosto abatido, cravejado de rugas – rugas que surgiram da noite para o dia. Enfim, era o reflexo de uma vida dilacerada pelo sofrimento. Você sentia-se um morto-vivo e parecia não haver nada que pudesse mudar aquela situação.

Para que sair se o terreno em que iria pisar estava todo minado, prestes a explodir e acabar com você de uma vez por todas? Você não quer olhar para ninguém, porque ninguém irá olhar em seus olhos e perguntar se está bem, se está precisando de alguma coisa, se quer conversar, se quer desabafar. As pessoas, na frieza do cotidiano acelerado, passarão por você e, nem mesmo, o cumprimentarão; isto fará com que sinta-se invisível, inferior, fará com que sinta-se incapaz de provocar uma reação alheia, fará com que sinta-se um verdadeiro joão-ninguém. É melhor permanecer em casa, no quarto, na cama, no escuro, no calor do dia, longe de tudo, mas próximo à sensação deprimente que o sufoca, que o açoita a todo instante, querendo retirar a fagulha de esperança que teima em esconder-se em seu coração. “Não adianta, é o fim”, você pensou, enquanto as lágrimas escorrem de seus olhos, e seu peito arde de dor, de angústia. É melhor desistir de tudo, de si mesmo.

Não desista. Busque a força que está represada em seu coração, transforme o sofrimento num gerador de força e prossiga. Levante-se, não só da cama, mas da situação que o domina. Lute e vença, porque você é capaz. Basta querer lutar e querer vencer. A vida é constituída de problemas: contas (viver é caro!), carros quebrados, canos entupidos, ruas esburacadas, festas barulhentas no vizinho, perseguições no trabalho, amores não-correspondidos, saudades, solidões, dores, doenças... Mas sempre há solução, mesmo quando parece não haver. A solução está na vida, porque a vida, mais que tristeza e sofrimento, é alegria e contentamento. Não desista. Deixe os lamentos, as lembranças amargurantes, a pena de si mesmo, e reconheça que nasceu para ser feliz e para contribuir com a felicidade alheia, reconheça que cada situação difícil traz em si fortalecimento e ensino; o fortalecimento do espírito que não julga e não condena, mas perdoa, e o ensino de que nada acontece em vão, tudo tem um sentido, uma explicação, um porquê.

Não desista. A carga é pesada, mas seus ombros são fortes. Deixe a inferioridade, porque você é importante. Tenha consciência que não é o fim, mas o início – o início de uma etapa de alegria. Não pense que ninguém se importa com você, não pense que está só, à margem de todos e tudo. Há quem preocupa-se com você; não fuja de quem o quer bem. Permita que a fagulha de esperança torne-se uma chama em seu coração, consumindo a dor, e, como um guerreiro, arme-se com a coragem, a força e a determinação, e caminhe pelo terreno minado, desviando-se do perigo e destruindo as bestas-feras que colocarem-se em seu caminho.

Elson Teixeira Cardoso, escritor, blog: www.diarioliterario-nocontexto.blogspot.com

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