Um batalhão de cerca de 30 policiais militares, “anjos fardados”, transformou anteontem à noite a avenida Duque de Caxias num corredor pela vida. Sincronizados, interditaram vários cruzamentos da via para salvar Alan Vitor Rodrigues da Silva, 3 anos, desfalecido no colo da mãe após ingerir veneno.
Quase em estado de choque, Viviane Rodrigues da Silva pressionava o filho nos braços e invocava a mão de Deus, enquanto eram transportados pela PM ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI). A prece prosseguiu mesmo após a criança ser acolhida pelos médicos. Para ela, não restam dúvidas: a vontade divina lhe providenciou “anjos”, que conseguiram salvar o garoto. “E não é exagero”, garante.
Para auxiliá-la, a PM lançou mão da “doutrina de cerco”. Pelo menos 15 viaturas, de forma coordenada, interditaram a avenida para dar passagem à equipe da polícia que conduzia Alan. “Teve solidariedade e, acima de tudo, aplicação tática”, ressalta o capitão Jorge Duarte Miguel, coordenador operacional do 4.º Batalhão da PM do Interior (4º-BPMI).
O oficial destaca a noção prévia de posicionamento dos policiais, que sabem como portar-se numa situação de emergência. Por intermédio da rede de comunicação (rede-rádio), eles se colocaram ao longo da Duque de Caxias. Enquanto se deslocavam para o cruzamento mais próximo, informavam o ponto de atuação ao Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). Ao mesmo tempo, já se comunicavam com o Pronto-Socorre Infantil, que, por sua vez, se mobilizou para dar agilidade ao atendimento.
Quando percebiam a aproximação do veículo com a vítima, os policiais impediam o trânsito de outros veículos, num efeito dominó. “A viatura (com o menino) passava e o tráfego era liberado na seqüência. O sistema (de rádio) mantém todas as viaturas em contato”, informa o comandante da Base Comunitária de Segurança Centro, tenente Bruno Mandaliti Scarp.
De acordo com ele, os policiais têm facilidade de movimentação também porque a cidade é subdividida em setores, em virtude do patrulhamento preventivo. Mesmo assim, a experiência profissional é fundamental nestes casos. Nenhum policial de rua tem menos de seis anos de atuação, acrescenta o sargento Edivaldo de Souza Avelino, supervisor da Base Centro.
Emoção
Ainda assim, quando não estão sob efeito de adrenalina, situação corriqueira durante as operações, policiais também são acometidos pela emoção. A soldado Keila Patrícia do Carmo, da 1ª Companhia da PM, embargou a voz ao agradecer os colegas que lhe ajudaram no salvamento da criança ao interditar a Duque. “Durante a ocorrência tentei passar tranqüilidade à mãe (como aprendeu na corporação). Mas me tocou o agradecimento dela”, confessa.
Ontem, ao ler no JC a matéria sobre a ocorrência, Keila não conteve as lágrimas. Em contrapartida, ouviu da filha de 7 anos: “Mãe, tenho muito orgulho de você”. Ambas choraram juntas com a história de final feliz.
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Como foi
Com apenas 3 anos, Alan Vitor Rodrigues da Silva ingeriu, na noite de quarta-feira, uma dose de carrapaticida que ele encontrou na rua enquanto brincava, conforme o JC divulgou ontem. Após consumir o produto, chegou em casa (na rua Antônio Fortunato, no bairro Pousada da Esperança) passando mal.
Percebendo a intoxicação ao ver o recipiente, a mãe Viviane Rodrigues da Silva lhe deu leite e chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Quando dava banho na criança, ela começou a piorar. A mãe foi então para a calçada com o filho quase desmaiado nos braços esperar o socorro, que não vinha.
Um motociclista, que passava no local e viu o desespero da mulher, foi atrás de ajuda e encontrou, não muito longe dali, uma viatura da PM que escoltava um ônibus. “Quando soubemos que era uma ocorrência que envolvia criança fomos imediatamente”, contou o soldado Fernando Sérgio Crivellaro.
Alan poderia morrer se demorasse a ser atendido. A criança foi submetida a uma lavagem estomacal e passou a noite internada em observação. Ontem logo pela manhã, o medicamento foi suspenso e ele recebeu alta. Sem qualquer resquício da sonolência da noite anterior, aceitou o leite e, depois, voltou para casa.
Da Redação
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Imprudência
Quem descartou na rua o carrapaticida Amipur é, no mínimo, imprudente. No entanto, poderia até ser enquadrado por periclitação à vida, ou seja, colocar alguém em perigo. A avaliação é do capitão Jorge Duarte Miguel, coordenador operacional do 4.º Batalhão da PM do Interior (4º-BPMI).
Alan Vitor Rodrigues da Silva, 3 anos, correu risco de morte após tomar parte do líquido que ainda restava no frasco. O veneno tem ação direta no sistema nervoso central, no sistema cardíaco e no respiratório, explica o diretor do Departamento de Urgência e Emergência, José Roberto Berber.
De acordo com ele, a criança poderia sofrer convulsões, ter parada cardíaca ou respiratória. “Quanto antes puder fazer a lavagem gástrica melhor. Se (o organismo) absorver, tem que tirar do sistema circulatório. É mais difícil”, informa o médico. Após a ingestão, a absorção pode levar até duas horas. No entanto, o metabolismo da criança é mais acentuado.
Berber acredita que a ação policial realizada anteontem é importante principalmente em horário de rush, quando o tráfego é mais lento. Ele explica que quando um caso grave é atendido pelo Sistema de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), funcionários que trabalham na sala de regulação comunicam o Pronto-Socorro Central (PSC) para que a sala de atendimento já esteja pronta para chegada do paciente.
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Outros casos
A ação policial que ajudou a salvar a vida de Alan Vitor Rodrigues da Silva, 3 anos, só é realizada em situações pontuais de cerco a eventuais bandidos e salvamento. Dos últimos tempos, o caso de resgate mais grave ocorreu em 1999, quando um caminhão colidiu com um ônibus de trabalhadores rurais.
Vários agricultores morreram e outros sofreram ferimentos graves, lembra o capitão Jorge Duarte Miguel, coordenador operacional do 4.º Batalhão da PM do Interior (4º-BPMI). Na ocasião, conta ele, a avenida Duque de Caxias foi totalmente interditada para facilitar o tráfego específico das viaturas de socorro, que eram muitas.
Já um dos casos mais recentes ocorreu no final do mês passado, quando a colisão entre uma motocicleta e um ônibus, no cruzamento da avenida Rodrigues Alves com a rua Azarias Leite, vitimou Alex Francisco Cardoso, 28 anos. Ele foi socorrido em estado gravíssimo por uma unidade de resgate do Corpo de Bombeiros ao Pronto-Socorro Central (PSC), mas morreu cinco dias depois.
O soldado despachador do Copom Marcelo Ribamar Alves também lembra do afogamento de uma criança, no final do ano passado. Desesperada, a mãe mal conseguia falar com ele por telefone. A ligação chegou a cair. Ele ligou de volta e conseguiu orientar um irmão dela sobre como proceder até a chegada das viaturas da PM.
“Orientamos a seguir imediatamente (sem aguardar o Samu, por exemplo) e parar no primeiro atendimento médico (não necessariamente no PAI)”, recorda Alves.