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Importância de ser bauruense


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Há momentos em que pergunto a mim mesmo: o que deve ser importante, em Bauru, para os bauruenses? Cheguei a achar que era o Pelé, “o atleta do século XX”. Toda vez que recebo algum estrangeiro e informo que Pelé aprendeu a jogar aqui em Bauru, o visitante me pede para tirar uma foto de recordação junto a sua estátua. Surpreende-se quando sou obrigado a informar que nada há, nesta cidade, que marque a sua presença. Nem museu, sequer uma plaquinha na casa onde morou com os pais ou na escola onde estudou. Costumava mostrar o BAC, seu primeiro clube. Hoje, nem isso é mais possível. Concluo: Pelé não tem importância alguma para o bauruense...

Uma vez, no Japão, me perguntaram da Casa da Eny. Meu interlocutor era um executivo da Ebara, que tem uma fábrica no nosso DI. Sem surpresa. Há mais de trinta anos, em outras cidades ou Estados do Brasil por onde passava, a pergunta inevitável era sobre o então famoso prostíbulo. O órgão encarregado de preservar o patrimônio arquitetônico e cultural de Bauru tombou o que não havia sido “tombado” da Casa da Eny. Recebeu tantas descomposturas das famílias tradicionais que resolveu recolher-se à sua insignificância. Então, a Eny também não é importante para o bauruense. Seria, quem sabe, a Estação Ferroviária da NOB? Projetada e construída no final dos anos 30, exemplo de arquitetura eclética puxada para o art-déco pelo equilíbrio dos volumes e uma certa singeleza linear, ainda impressiona. Tão bonita que o cronista-maior Ignácio de Loyola Brandão achou sua foto em casa e a usou-a para ilustrar uma ficção-memória de sua autoria, numa grande revista. Confundiu-a com a estação ferroviária de Anhalter, em Berlim, “hoje em ruínas”, justificou-se na última crônica no “Estadão”. Mal sabe ele que a nossa estação, cuja foto guardou movido pelas lembranças do pai ferroviário, também está caindo aos pedaços. Chegaram a anunciar a construção, ali, de um shopping center popular, tipo Galeria Pagé. Fora disso, para nós nada vale.

Quando Thomaz Souto Corrêa vinha a Bauru para visitar o Centrinho, jornalista e intelectual que durante anos dirigiu o suplemento literário do “Estadão”, sempre me perguntava sobre Rodrigues de Abreu. Para ele, o “grande esquecido” maior poeta brasileiro da fase de transição entre o romantismo e o modernismo, com “Casa Destelhada”. Havia um busto do poeta na praça da Igreja. Meses atrás li no JC que uma professora do parque infantil achou a peça de bronze solta da base a guardou-a numa prateleira da escola. Quando cheguei em Bauru os óculos, bengala e outros objetos de Rodrigues de Abreu estavam numa vitrina do Centro Cultural. Desapareceram não só as relíquias como o próprio Centro Cultural. Finquei raízes em Bauru há mais de 40 anos e ainda não sei o que é importante para os que aqui nasceram, vivem ou simplesmente acham que “aqui é um lugar bom para se viver”, como o saudoso James Russel. Foi um americano maluco que resolveu morar em Bauru. Criador esquecido de um dos primeiros condomínios horizontais (fechado) do Brasil, o “Paineiras”. E o Mauro Rasi, nosso maior e insuperável dramaturgo? Nem uma plaquinha no sobradinho da Rua Bandeirantes onde (se ainda existe) está a piscina, realização do sonho de “Pérola”.

Tenho que encurtar essa tragédia bauruense, em ato único. Vitória Régia, único cartão-postal, obra do maior urbanista que já tivemos, Jurandyr Bueno Filho. Há projeto de transformá-la num piscinão. Os pilones acústicos que são sua marca registrada mais parecem mãos em garra levantadas aos céus, pedindo clemência pelo abandono.

Agora, o prefeito concorda em acabar com o aeroporto do Aeroclube, pioneiro na construção e vôo de planadores. Instituição que ajudou na formação dos primeiros pilotos de caça a jato do Brasil e de masters transcontinentais da Varig. Clube que ensinou os primeiros passos ao fundador da indústria aeronáutica moderna do Brasil (Embraer), Ozires Silva; de lá saíram dois ministros; altas patentes da Aeronáutica; dois vices-campeões mundiais de vôo a vela e vários campeões brasileiros. Continua sendo o terceiro maior aeroporto do interior em movimento, mesmo sem os aviões da Pantanal. Motivo da liquidação: hoje o Aeroclube serve a meia-dúzia de burgueses com suas máquinas voadoras, praticantes de um esporte caro e seletivo. 90% das suas terras pertencem ao povo. Argumento fortíssimo para a quase totalidade da população, os sem avião, os sem terreno, os sem moradia. Democracia é o governo da maioria. E a maioria não tem nada disso. Vão construir torres de apartamentos para os que têm dinheiro, em meio a muito verde, áreas de recreação e centro de compras. Não estou preocupado com os volovelistas. Agudos é aqui pertinho. Também não me importa quem é que vai ganhar dinheiro com a especulação imobiliária. Só quero reposta à dúvida que há anos me assalta: o que é importante neste “chão de passagem” (Lúcia Helena d´Agostino), para os que resolveram ficar?

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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