Em 1978, estávamos numa estada de 15 dias num hotel de Poços de Caldas (MG). Eu, minha esposa e três filhos menores. Num determinado dia, minha mulher me disse que iria às compras, no centro comercial. Fiquei na piscina do hotel com os meus filhos. Na estrada, quando já retornávamos a Bauru, ela me comunicou que havia mentido para mim: tinha ido, não fazer compras, mas sim consultar uma famosa vidente, a Dona Cida. Retruquei imediatamente que cartomante para mim era sinônimo de alguém explorando a boa-fé dos outros. Era puro charlatanismo. Porque só Deus poderia saber o futuro dos homens. Ninguém mais.
Minha esposa tranqüilamente interveio no meu discurso filosófico-religioso, revelando que Dona Cida tinha dito isto e aquilo sobre minha vida pregressa. Coisas que se passaram comigo, na minha infância e que não eram do conhecimento de minha esposa. Quis então conhecer a cartomante, em outra oportunidade. E assim aconteceu.
Dona Cida logo me impressionou, pela simplicidade no falar e no vestir. Uma mineira de fala macia, irradiando uma bondade inata. Uma alma ímpar. Calmamente ela foi descortinando premonições sobre nossa empregada doméstica, meus filhos menores, minha esposa e sobre mim também. Tudo bem dosado em detalhes, com os anos em que ocorreriam os eventos. Seria inexeqüível enumerar todas as previsões ditas por ela, por ser exíguo o espaço ofertado pelo jornal. Citaremos apenas algumas delas, resumidamente. Contudo, todas as premonições se concretizaram tal qual ela disse.
Em 1982, nossa empregada doméstica (que trabalhou conosco por mais de 10 anos) iria me denunciar junto à Justiça do Trabalho, mas não lograria um bom êxito. Em 1988, meu filho do meio (aos 15 anos) seria pai, se casaria e se separaria um ano depois. Em 1990, meu filho mais velho (aos 19 anos) sofreria um acidente de moto. Em 1993, minha esposa (aos 46 anos) ficaria muito enferma, sofreria dores terríveis e contínuas, seria operada por quatro vezes num período de 6 meses. Dona Cida disse ainda o tipo de doença e a parte do corpo a ser atingida pelo mal, mas que não seria um câncer.
A cartomante me fez humildemente rever velhos preconceitos inculcados por uma sociedade intolerante. A tendência nossa é sempre ditar regras e proclamar verdades imutáveis quando não se sabe nada sobre determinado assunto ou coisa. Questionar sempre, buscar a verdade esteja ela onde estiver, despidos de intolerância. E lembrar que: “... existem mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha tua vã filosofia...” (Shakespeare, em “Hamlet”).
Gilberto Sidney Vieira