Desde o final do ano tenho ouvido sussurros sobre anistiar José Dirceu. O ex-deputado está em campanha para conseguir 1,5 milhão de assinaturas para colocar em votação um pedido de anistia. Considerando-se que o Congresso tem votado alguns projetos na calada da noite, silenciosamente... tudo é possível nesse país, onde os parlamentares presenteiam-se com aumento de 91%. Será esse o mensalinho deles?
Mensalão não é uma palavra nova no dicionário mundial. Muito antes de Roberto Jefferson ter usado o termo, ele existia. Judas recebeu trinta moedas para trair Jesus, um dos primeiros casos de propina da história. Até hoje não se sabe quem pagou, se os romanos ou os judeus. Muitos políticos foram derrubados por corrupção. O falecido primeiro-ministro italiano Betinno Craxi e o ex-chanceler Helmut Kohl são exemplos clássicos. Mas, voltando às mensalidades, o diplomata da União Soviética, coronel da KGB Vladimir Novikov, que permaneceu no Brasil durante toda a década de 1980, afirmou que Luis Carlos Prestes, Olga Benário, a UNE e Roberto Freire recebiam dinheiro da Rússia, o conhecido ouro de Moscou.
Quando Collor não explicou a origem daquela montanha de dinheiro foi cassado por isso e cumpriu sua pena. Tinha até um Fiat Elba no negócio. O ex-ministro Magri teria recebido 30 mil dólares. Trinta é um numero cabalístico nesses casos mal explicados. Foi em 30 de setembro que os trinta parlamentares envolvidos no mensalão foram denunciados. Com o passar dos dias descobriu-se que eram quarenta. Número igual ao dos companheiros de Ali Baba. Depois vieram as CPIs, as pizzas e as eleições, em seguida o silêncio. Aurélio define silêncio como o estado de quem se cala ou se abstém de falar. Para o filósofo grego Sófocles: há algo de assustador num silêncio muito prolongado. E havia... José Dirceu movendo-se sorrateiro para voltar ao Parlamento e talvez ao seu cargo informal de primeiro ministro. Esse silêncio foi quebrado em 30 de janeiro pelo grupo criador da Campanha Contra a Anistia de Zé Dirceu. O ex-deputado denunciado em 30 de março de 2006 ao Supremo Tribunal Federal como líder de “uma sofisticada organização criminosa” nas palavras do procurador Antônio Fernando de Souza, quer o perdão. Acredito que toda a história não foi bem explicada. As investigações bateram em Santo André no caso do prefeito Celso Daniel e continuaram depois, durante a campanha eleitoral com a compra de um dossiê. Clamar pela sua anistia é no mínimo falta de respeito com uma parcela do povo brasileiro. A Câmara cassou o mandato do deputado após ter sido acusado de envolvimento com o mensalão. Se o seu pedido chegar lá existem probabilidades dele vencer. Vocês têm dúvidas sobre qual será a atitude da Câmara chamada pela revista britânica The Economist de chiqueiro? Agora, o protesto veio da CNBB condenando a anistia política de Dirceu. Será que não é hora dos formadores de opinião quebrarem esse constrangedor silêncio enquanto é tempo? Pois quem poupa o lobo, mata as ovelhas, dizia o sábio Victor Hugo.
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte e coordenadora do curso de pós-graduação lato-sensu Design de Interiores: Interfaces, do Iesb