O número de pacientes com transtornos mentais que trabalham e param devido à incapacitação temporária ou definitiva vem aumentando e é só uma ponta do iceberg.
Segundo o dr. Julio César Fontana-Rosa, especialista em Saúde Mental do Trabalho da USP, primeiramente a dor lombar foi o principal motivo de incapacitação, ausência e recebimento de benefícios. Depois, veio surdez devido ao ruído, e, posteriormente, veio Ler/dort, devido aos vícios posturais no trabalho repetitivo. O primeiro resolveu-se com carregadeiras motorizadas e ninguém carrega sacos pesados por longas distâncias. A segunda causa que mais prevalecia, a surdez, resolveram-se com abafadores de som nos ouvidos e medições constantes por aparelhos das fonoaudiólogas. A terceira e última causa, que era recentemente mais prevalente, a Ler/dort resolveu-se exercícios de alongamento específicos no próprio local de trabalho.
Atualmente, a doença mental vem se tornando a primeira causa de incapacitação para o trabalho. Segundo o dr. Julio Cesar, o humor é um recurso do trabalhador e em ambientes de trabalho cada vez mais concorrênciais, tanto interno dentro de uma empresa, quanto externo entre empresas, faz aumentar estresse sobre o trabalhador. O assédio moral feito por supervisores, diretores e patrões fazem exaurir os humores dos trabalhadores, pois estes são necessários para manter o tônus cognitivo e psíquico, isto é, manter níveis de atenção e consciência, para bom desempenho das atividades administrativas e produtivas.
Outra pesquisadora, Andergh Barbosa-Branco, do Laboratório da Saúde do trabalhador da UNB, cita que 9,8 % dos auxílios-doença foram devido às doenças mentais em 2004. Foram 103.393 benefícios devido a transtornos mentais. A depressão foi responsável por 53.269 benefícios e os transtornos de humor bipolares, 4.151 benefícios e a esquizofrenia, 4.596. Os transtornos ansiosos vêm em segundo com 11.059 e alcoolismo em terceiro, 7.078. Esta autora diz que somente casos muitos graves fazem o paciente entrar com tal recurso, pois a resistência e preconceito é muito grande, o não diagnóstico e ocultação são muito grandes. Não há muitas leis e medidas que protejam tais populações mais vulneráveis e, as mulheres de acordo com as pesquisas feitas, têm 50% de se afastarem do trabalho a mais por transtornos mentais.
A mulher, segundo a psicóloga Maria Elenice Quelho Areias da UNICAMP, que trabalha, trabalha em dobro, pois ao voltar para casa precisa cuidar da casa e dos filhos somado as oscilações hormonais, TPM, pós-parto e menopausa, que as predispõem a ter depressões 5 vezes mais que o homem. Sabe-se que os hormônios femininos são fatores neuro-tróficos para fazerem os neurônios produzirem os humores necessários para aquele tônus psíquico referido no começo deste texto.
Outro problema são os turnos noturnos, das 15hs às 23hs, ou das 22hs às 6hs, fora do horário habitual das 8hs às 5hs. Existem ciclos biológicos normais atividade-repouso, e são regulados ritmos hormonais e neuromoduladores. Sabe-se que na população que trabalha a noite há maior prevalência de transtornos de humor depressivos e bipolares que na população em geral. O sono mais reparador é o noturno, o que obriga para melhorar os pacientes, a voltar trabalhar de dia. Isso gera dilemas e conflitos nestes.
Muitos desses processos administrativos viram processos previdenciários. Muitos destes viram processos jurídicos. Dr. Julio Cesar Fontana-Rosa diz que não há número suficiente de psiquiatras especialistas em Medicina do Trabalho para dar conta de tantos processos. Daí, sua proposta de criar uma nova sub-especialidade dentro da Psiquiatria: a Saúde Mental do Trabalho.
Segundo, Richard J. Bonnie e John Monahan, especialistas desde assunto na Universidade de Virginia, USA, os transtornos emocionais, ansiosos e de humor, são os que sofrem mais injustiças e discriminações nesta área. Pois são os que são os que têm mais potencial de vida produtiva, mas são confundidos com outros transtornos psicóticos, como esquizofrenia que são bem mais realmente incapacitantes. Muitas leis, normas administrativas e regulamentações precisam ser revistas ou criadas nesta área para que haja mais justiça. Assim, como mais especialistas desse assunto.
Dr. Carlos Manuel Cristóvão, psiquiatra CRM 88611