A iniciativa do governo de montar um mecanismo de acompanhamento das obras listadas no Programa de Aceleração do Crescimento, inclusive as que estão em andamento, repercutiu de maneira muito positiva no setor produtivo privado: pela primeira vez, após duas décadas, se terá novamente um sistema de controle físico das obras, o que certamente melhora a qualidade da execução dos serviços. O sistema, segundo se informa, será monitorado por um comitê gestor formado pelos ministros da Casa Civil, Planejamento e Fazenda (o GPAC) e se propõe fazer o acompanhamento mensal de cada obra. Quer dizer, vai se instituir uma espécie de “follow up” de modo a que o governo tenha as informações atualizadas para não ser surpreendido com notícias de atraso ou paralisação de obras. Dado que não haverá contingenciamento de qualquer espécie das verbas destinadas ao PAC, não há porque tolerar o mau desempenho.
Sob este aspecto o governo Lula dá demonstração que aprendeu com a história recente, olhando os registros de programas que não saíram do papel, como o denominado “Mãos à Obra” e o que sucedeu depois de dois lançamentos bombásticos do Avança Brasil de FHC, quando o país realmente não avançou nada. Imperdoável seria comportar-se de forma a ser “surpreendido” por um segundo “apagão” energético, depois que o primeiro esterilizou 2 pontos percentuais de crescimento do PIB em 2001.
O presidente poderia recuar um pouco mais no tempo para inspirar-se em períodos de crescimento robusto no século passado, quando governos e iniciativa privada puseram realmente mãos à obra para tirar o Brasil do subdesenvolvimento, atravessando turbulências políticas e crises institucionais de diversa natureza. Uma boa explicação para o fato que esta aliança funcionou de 1956 e 1961, por exemplo, foi a presença física do próprio presidente, Juscelino Kubitschek , nos canteiros de obras. Para garantir o andamento de seu programa de metas (o famoso “Cinquenta anos em cinco” !) ele punha o pé na estrada desde cedo: podia ser encontrado de manhã na abertura de um trecho da Belém-Brasília, à tarde na barragem de Três Marias e, antes de terminar o dia, no batismo de uma nova linha de montagem da nascente indústria automobilística em São Paulo. JK retornava ao local das obras quantas vezes fosse necessário porque sabia que sua presença era como um elixir estimulante que turbinava empresários e trabalhadores e inspirava a mídia local.
Outro exemplo de igual calibre é o do inesquecível ministro dos Transportes e do Interior nos anos 60/70 e de 1979/85, Mário Andreazza, quando a malha rodoviária asfaltada do Brasil simplesmente triplicou e atingiu o ápice o maior programa de construção de moradias de nossa história. Ele madrugava na estrada e em 1973/74 chegou a morar no canteiro de obras da ponte Rio-Niterói até vê-la concluída.
Não se sugere que o presidente Lula volte os ponteiros do relógio ou cometa maiores exageros e, sim, que faça uso de seu carisma pessoal para fortalecer o espírito de desenvolvimento que estava adormecido e que aos poucos está renascendo em todo o país. Renovado, em parte, por conta do sentimento de esperança que ele despertou na última conquista eleitoral e com o lançamento do PAC.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento