Cultura

‘Avante, Noroeste’

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

No estádio Alfredo de Castilho, uma queima de fogos abria o clássico entre Noroeste e Corinthians. O ano era 1979, mas precisamente 28 de outubro, quando o alvirrubro empatou com o time adversário e conseguiu uma vaga na fase decisiva do Campeonato Paulista. Mas o motivo desta matéria não é o jogo em si, mas sim o que antecedeu a partida: a apresentação do hino do clube, a marchinha “Avante Noroeste”, de autoria do maestro santista e dono de título de cidadão bauruense Miguel Ângelo Ruiz.

A canção, composta três anos antes numa única noite, trazia um arranjo para todos os instrumentos de uma banda. A letra, um chamativo para o Noroeste escrever a sua história, foi recebida em êxtase pela torcida com a apresentação do Coral Arte Viva e registrada por rádios da cidade. Esta amadora gravação foi executada durante muitos anos pelos alto-falantes do estádio e até hoje pode ser ouvida em algumas emissoras durante a transmissão dos jogos do Norusca.

Mas o hino está longe da boca do povo, como conta um dos seis filhos do maestro, Márcio Silvo Ruiz. Ele se lembra do constrangimento do último jogo entre São Paulo e Noroeste, quando, ao fazer o primeiro gol, a torcida do tricolor enxovalhou os noroestinos cantando de ponta a ponta o hino do time. “Quando o Norusca empatou, quisemos dar o troco, o problema é que ninguém sabia a música decor”, lamenta.

Justamente para ativar a “memória musical” da cidade é que Márcio, mais a irmã Maria Zuleika Ruiz, se uniram à regente do Coral Arte Viva, Sônia Berriel, para se colocarem à disposição dos interessados em regravar o hino e divulgá-lo entre a torcida e a população de Bauru. “Uma obra como essa, escrita pelo maior músico de Bauru, não pode ficar esquecida”, diz a regente, auto-intitulada “filha artística” do maestro.

A admiração de Berriel pelo trabalho de Ruiz está na entonação emocionada da voz ao se referir ao “monstro sagrado da música” e também em sua própria casa. Na parede em frente ao piano, a fotografia de Miguel Ângelo Ruiz, impecável de terno e gravata, está ao lado de compositores consagrados da música erudita, como Mozart e Beethoven.

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Popular e erudito

Durante o dia, Miguel Ângelo Ruiz era funcionário do Correios de Bauru e, à noite, compositor. No currículo do músico, constam mais de 190 músicas entre tangos, marchas, suítes, prelúdios, choros, sonatas, valsas, hinos e composições para canto e orquestra. “Acho que ele não dormia!”, diz a filha Maria Zuleika Ruiz.

A música também era entretenimento nos almoços em família. “Enquanto esperávamos a refeição, ele (Miguel) ficava batendo os talheres no prato e nós acompanhávamos”, lembra com olhos nostálgicos o filho Márcio Silvo Ruiz.

Apesar de ser conhecido em Bauru como um músico popular por sua atuação à frente de bandas da cidade, a regente Sônia Berriel faz questão de ressaltar seu talento como compositor erudito. “Ele escrevia para todos os instrumentos de uma orquestra”, fala empolgada.

Graduado até a quarta série do antigo primeiro grau, o maestro nunca participou de nenhum curso superior em música, mas devorava todos os livros sobre o assunto. “Tem coisas que as pessoas nascem sabendo e eu chamo isso de dom”, explica Berriel, que classifica as composições do maestro como criativas e funcionais.

O talento do compositor foi reconhecido pelo então maestro da Orquestra Sinfônica de Campinas. Ruiz escreveu uma obra para os mais de 100 músicos da orquestra com a condição de que o pianista fosse seu neto, o único da família a seguir a carreira musical. “O maestro aceitou na hora”, lembra Márcio.

Até mesmo o papa se rendeu ao trabalho do compositor. Sem saber precisar a data, sua filha se recorda da ocasião em que um padre de Bauru viajou até Roma e levou consigo uma melodia ao papa feita pelo maestro bauruense. “Temos guardado um documento do Vaticano em que o papa agradece o presente e abençoa os bauruenses”, afirma Zuleika.

Mas, em 1981, um enfarto fulminante levou nosso maestro, aos 72 anos de vida. Hoje, seus cinco filhos – um morreu num acidente de carro – e sua esposa, aos 93 anos, lutam para manter viva a obra de Ruiz. Os interessados em regravar o hino do maestro devem ligar para (14) 3223-4140.

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Avante, Noroeste

(marchinha)

I

Avante, avante, Noroeste

Bauru com emoção

Alça essa bandeira alvi-rubra

Ao pé do coração!

Avante, avante, mocidade,

Vanguarda varonil

e luta por Bauru , que é uma cidade

Maravilhosa deste Brasil!

Estribilho

Avante, Noroeste,

Honra a camisa

E em máscula vitória

No peito e na raça

com garra e amor,

Escreve a tua história

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