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O ouro de Bauru


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Quando a primeira luz salmão da manhã atravessava a vitrina exposta pela única porta de aço ainda semi-aberta, Lacito chegava para trabalhar. Seu Antonio Garcia já o aguardava com seu imaculado terno de linho branco, um legítimo York Street irlandês de 120 linhas por polegada. Diante anos foi assim. Desde 1934 quando o bauruense começou a se orgulhar da Casa Luzitana, um moderno magazine que vendia de prego a bebidas importadas; de armas de caça Remington e revólveres Colt, até finos bordados da Ilha da Madeira.

Uma das missões de Lacito era subir no forro da loja e dar corda no relógio italiano da fachada de frente para a Praça Rui Barbosa. Durante décadas a população se orientou pela Hora da Luzitana para não perder a missa da Catedral. Quando soavam as oito badaladas o comércio da Rua Batista abria as portas. A mesma mecânica se repetia às seis da tarde. Namorados marcavam encontros e cobravam atrasos pelos ponteiros do relógio. A Praça Rui Barbosa era um jardim de estilo francês, com canteiro de flores, árvores, pontes de alvenaria imitando troncos sobre o lago, onde imperava a fonte luminosa.

Com a morte de seu Antonio, imigrante português de Trás-os-Montes, o empreendimento passou para o filho Ary, advogado e jornalista que quis seguir a tradição. Conseguiu manter a loja “tem-tudo” que povoou o imaginário dos fregueses de caderneta, com os seus objetos de desejo. Em 1975, com a concorrência dos modernos supermercados Ary decidiu indenizar os funcionários, pagar os fornecedores tostão-por-tostão e fechou as portas. Walace Rocha Coelho, o Lacito, mesmo sem o emprego continuou durante 20 anos subindo no forro da loja para manter a tradição do relógio confiável da Luzitana. Até que morreu. Ary e os ex-funcionários que ainda vivem passam dos oitenta anos. Ainda conseguem, graças a Deus, dar corda na própria existência e viver com dignidade. Mas, impossível a escalada até o mecanismo que o Lacito entendia tão bem, a ponto de conversar com as engrenagens. O relógio está parado. Assim como o outro da praça, muito mais jovem, em forma de “I” com um pingo vermelho. Criado como marketing político não resistiu a mais que um mandato de prefeito. A Praça Rui Barbosa, com as lâmpadas queimadas, o chafariz que não funciona, ainda mantém o coreto inglês, mas sem a banda de alegres dobrados. Hoje, a seus pés, pregadores evangélicos aproveitam para converter os passantes nas manhãs de sábado. Barracas de falsos artesanatos disputam lugar nas pedras portuguesas enodoadas pelo óleo das frituras dos pastéis beneficentes. O arquiteto Jurandyr Bueno Filho, quando projetou a reforma quis dar ao local um ar de Plaza Mayor. Um espaço que os hispânicos utilizam para conversar; onde as crianças podem correr; os cidadãos se manifestam politicamente; e os artistas sem palco dão vazão a sua criatividade. Parece que não deu muito certo esse perfil democrático. A culpa não é do arquiteto. Nem dos nossos dirigentes que parecem aqueles personagens de Borges - nunca olham para cima. Só para os próprios pés. Se inclinassem a cabeça um pouco para trás iriam ver os relógios parados. Nada agradável. Em compensação teriam a visão magnífica da copa do timburí (na língua dos caingangues significa “árvore de bálsamo”). Deve ter sido plantado no tempo em que ali se ergueu a primeira igreja Matriz. Salvou-a dos cupins um outro anônimo como o Lacito. O seu Waldomiro Retz. Nem aqui mora. É de Pederneiras. Devemos a esse mesmo cidadão a preservação da copaíba mais que centenária da Getúlio Vargas. A Prefeitura tirou tanta terra a sua volta que a árvore começou a pender a favor dos ventos dominantes daquele local onde está o Aeroporto, perdão, Aeroclube. Seu Retz, mais um auxiliar, fez o escoramento da árvore, trouxe terra com carrinho de mão e providenciou um barramento tosco com galhos de árvore. Depois de inaugurada a avenida a árvore voltou a ser ameaçada, desta vez pelos cupins.Ele chama de “endroscopia” a operação que fez para matar os cupins e impermeabilizar o buraco para que o tronco não apodreça. Aproveitou para levar ao ato cirúrgico as crianças da Escola Wilson Monteiro Bonato, ali perto. Foi o jeito que achou para comemorar seus 86 anos. Surpreendeu-se com a consciência das crianças sobre proteção ambiental. Pouco pôde ensinar, mas confessa que foi um dos dias mais felizes da sua longa vida ver as crianças abraçadas ao velho tronco.

Seu Retz matava formigas em 57 emeis da Prefeitura, mais praças, jardins e prédios públicos. Preocupa-se com o Paço Municipal, segundo ele, ameaçado pelos insetos que o povoam. Uma obra magnífica de Zenon Lotufo, da escola de Le Corbusier. O prédio construído por Nuno de Assis até hoje tem uma arquitetura arrojada e funcional, com seus brises-soleil. Seu Retz ficou magoado porque cortaram o combustível do seu Fusca 1973 e o proibiram de entrar na Prefeitura. Continua vindo todos os dias de Pederneiras para matar insetos em locais públicos e privados e plantar árvores, agora com a sua gasolina, o seu inseticida e as mudas do seu quintal. Sem dependências de Gabinete. Calcula já ter plantado 170 mil árvores, incluindo reflorestamentos e recomposição de matas ciliares.

Esse é o “ouro” de Bauru: o seu povo. Patrimônio “intombável”. Ninguém conseguirá destruir. Jamais.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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