Não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar. Não quero provar nada, eu já servi à Pátria amada e todo mundo cobra minha luz. O parágrafo acima não está entre aspas, mas não fui eu quem o escreveu. É a letra de uma música cantada, nos anos 70, por Raul Seixas, um ícone brasileiro da geração hippie que se caracterizava pela atitude alienada. Na verdade, a atitude hippie alienada surgiu, entre os jovens, nos Estados Unidos, como uma reação à ameaça de recrutamento para servir na guerra do Vietnã. Estudei naquele país nessa época, em intercâmbio para concluir o colegial, e era marcante a atitude absenteísta dos colegas americanos. Enquanto eu tinha planos para voltar ao Brasil e cursar engenharia, eles, quando perguntados sobre o futuro respondiam: “tanto faz, eu nem sei se vou estar vivo, meu número de recrutamento é baixo”.
Passado o modismo hippie, os jovens brasileiros, a partir dos anos 70, deixaram de lado a alienação e tiveram papel ativo em muitas das mudanças políticas ocorridas. Atuaram na luta armada contra a ditadura onde muitos pereceram, passando pela campanha das diretas-já até os cara-pintadas que, em 1992, exigiam a queda de Collor de Melo. Coincidentemente, em 1993, a Internet começa a se popularizar e, não sei se há nexo causal, mas a alienação parece ter retornado ao comportamento dos jovens. Desta vez, não é alienação de protesto, mas simplesmente atitude desengajada, do tipo “tanto faz, não importa o que eu fizer, não vai mudar nada”. Acho que dá um bom tema para pesquisa acadêmica: teria o maior acesso a informações levado os jovens a perceberem como é podre o mundo do poder e como quase todos aqueles que nele entram prometendo transformações acabam por sucumbir aos mesmos vícios que deveriam combater? Mas, voltando ao tema da alienação, parece que a morfina do desengajamento não tem atingido somente os jovens. Também a população mais vivida tem optado por ignorar os desmandos e as mazelas do país e, resmungando, vai tocando sua vidinha, sem tomar nenhuma atitude, até que um fato muito chocante agita o torpor de alguns. É o caso da morte do menino João Hélio, no Rio de Janeiro. Depois de muitos anos, vemos na TV passeatas de protesto, novamente. Com um número bem modesto de participantes, lá estão alguns representantes da classe média alta dizendo que seu grupo social se sente ameaçado pelos meninos da classe baixa. Claro que o ocorrido é chocante e também me sinto revoltado com a brutalidade mas, me atrevo a fazer o seguinte questionamento: patrocinado pela alienação da classe dita pensante, quantos meninos são trucidados diariamente nas favelas, nos guetos e nos grotões pela fome, pela falta de educação, pela deficiência do sistema de saúde e tambem pelo tráfico de drogas, este sustentado por consumidores das própiras classes abastadas que agora têm medo?
Os versos de Raul Seixas terminam assim: “Eu não sou besta pra tirar onda de herói... quem quiser que fique aqui. Entrar pra historia é com vocês!”. Então, caro leitor, acho que cada um de nós não precisa virar herói para fazer sua parte, e nem sequer entrar para a história, basta fazer um pouco, que é do pouco de muitos que se fazem as grandes transformações.
O autor, Eric Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião