Cultura

Histórias da periferia

Da Redação
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Há violência, sangue, drogas e tiros, mas também amores, canções e pequenos atos de heroísmo no livro “Cenas da Favela”, que a Geração Editorial, associada com a Ediouro, lança nesta semana. Organizado por Nelson de Oliveira, a coletânea tem textos de grandes nomes da literatura brasileira, de Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca a Marçal Aquino, Luiz Ruffato e Paulo Lins, todos com sua visão peculiar das periferias e bairros carentes do Brasil.

O organizador das histórias, Nelson de Oliveira, é premiado no Casa de las Américas, de Havana, e mestre em letras pela USP. Ele é responsável pela coletâneas “Geração 90: Manuscritos de Computador” e “Geração 90: Os Transgressores”.

De acordo com o material de divulgação da editora, ele garimpou nos livros de grandes nomes - clássicos ou jovens - da literatura brasileira e ali achou não apenas drogas, bandidos e indigência, mas homens e mulheres que, mesmo em situação-limite, mantêm a dignidade. Além de contos, o livro traz trechos de romance, diários e poemas. É a periferia vista pela literatura, muito diferente da que é apresentada nas páginas dos jornais.

São 24 autores: Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, João Antonio, Wander Piroli, Lygia Fagundes Telles, Cecília Prada, Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins, Sérgio Fantini, Ferréz, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Alberto Mussa, Chico Lopes, Fernando Bonassi, João Anzanello Carrascoza, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, João Paulo Cuenca, Luis Marra, Ronaldo Bressane, João Paulo Cuenca, João Batista Melo e Antônio Fraga.

Na apresentação, “Favela: Infinitas Falas”, Oliveira lembra que a antologia mostra muitas favelas, cada uma sob um ângulo social e afetivo. “A favela da indigência, da bandidagem e do tráfico de drogas, a face feia, suja e malvada (...) mas também a favela cheia de dignidade e do jogo de cintura na luta pela sobrevivência”. Ele destaca que buscou colocar em “Cenas da Favela” suas múltiplas faces, “a lírica, a alegre, a violenta, a trágica, a mágica, a melancólica, a jocosa, a dinâmica, a arcaica, a contemporânea, entre outras”, acrescenta o organizador.

Em entrevista divulgada pela editora, Oliveira comenta como tentou fugir do estigma do “modismo das favelas”. “O desafio de toda antologia temática é o seguinte: você tem que equilibrar perfeitamente duas forças distintas, o tema escolhido e a qualidade literária. O tema da favela por si só já provoca infinitas reflexões sobre a história, a sociedade, a economia e a cultura brasileiras recentes. Mas é claro que não era apenas isso que eu queria ver registrado, do contrário o resultado seria um trabalho pesadamente sociológico”, afirma.

“Minha preocupação foi privilegiar também a qualidade literária, por isso procurei selecionar apenas a boa ficção produzida a partir desse tema tão contemporâneo. Sempre que pude, evitei incluir as narrativas puramente panfletárias e militantes, com certo valor político e social, mas sem forte carga poética”, completa Oliveira.

O livro chama atenção pela presença de contos célebres como “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, que chegou a ser proibido pela ditadura militar em 1975, e “O Guardador”, de João Antônio, além de poemas, como o contundente “Favelário Nacional” , de Drummond, e trechos do diário “Quarto de Despejo” , de Carolina Maria de Jesus. A imortal da Academia Brasileira de Letras Lygia Fagundes Telles está presente com o conto “O X do Problema” , do livro “Cemitério dos Ratos” (1977).

Entre as novidades, estão “Desabrigo” , divertido e original conto de Antônio Fraga, autor que estava esquecido e foi resgatado pela pesquisadora Maria Célia Barbosa Reis da Silva, que coordenou a edição de “Desabrigo e Outros Tecos”. Carioca, Antônio Fraga teve várias profissões: lanterninha de cinema, auxiliar de cozinha, jornalista, agitador cultural, editor.

Seu texto explora, com arte, o “fértil linguajar do povo”, como escreve no conto da antologia, e ironiza os “anatoles”, em referência aos seguidores do escritor tradicional francês Anatole France (1844-1924), que na primeira metade do século 20 era admirado por intelectuais brasileiros.

Outro escritor que conhece bem a favela presente na antologia é Paulo Lins, autor do romance “Cidade de Deus”. Em “Cenas da Favela”, ele publica o bonito e engajado conto “Destino de Artista” , sobre dois compositores de samba-enredo, Empadinha e Azeitona. A antologia inclui ainda textos incisivos de Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz, Wander Piroli, Luis Marra, Joca Reiners Terron e o erótico “Baile perfumado” , de João Paulo Cuenca.

Do organizador, “Cenas da Favela” traz o conto-título de seu livro mais recente, “Algum lugar em parte alguma”, uma história kafkiana e bem brasileira de 32 páginas.

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