Benedita da Fonseca de Mesquita tem 53 anos e assina com o dedão. Nunca freqüentou a escola e, em plena era digital, é incapaz de diferenciar um algarismo de uma sílaba. Ela reconhece que não tem culpa de ser analfabeta. “Quando eu era menina, tive de trabalhar para ajudar minha família”, conta.
Toda a sociedade deveria ter consciência disso, mas muita gente parece não ter. Tanto que a moradora do Parque Ferradura Mirim já enfrentou diversas situações constrangedoras pelo fato de não saber ler e escrever.
“Em todo lugar que a gente vai as pessoas exigem que a gente assine o nome. Acabei tendo problemas”, diz. Meses atrás, uma das netas de Mesquita quebrou a perna. Preocupada, a idosa resolveu levar a garota até um pronto-socorro da região.
Enquanto aguardavam, as duas se depararam com o comportamento intransigente de uma funcionária do local. “Ela disse que eu teria de assinar uns papéis. Respondi que não sabia escrever e teria de ser com o dedão. Ela falou, então, que se eu não fizesse a menina não seria atendida”, recorda. Mesquita ficou nervosa; um homem que assistia à cena, resolveu ajudá-la. “Ele falou que assinaria no lugar”, diz.
Ela não quer mais passar por constrangimentos e por isso passou a freqüentar uma sala de alfabetização de adultos que funciona no Lar Irmã Adelaide. Mesquita ainda não sabe se a experiência será frutífera. “Por enquanto, ainda não aprendi nada”, reconhece.
O objetivo principal, por enquanto, é deixar de assinar com o dedo. A idosa espera que as professoras sejam pacientes, afinal sua idade já está um tanto avançada. “Cavalo velho é mais duro aprender a trotar”, brinca.
Muitas pessoas parecem concordar com ela, inclusive, aquelas que deveriam pensar de maneira completamente oposta. Valmir da Cunha Pereira, 48 anos, é genro de Mesquita e possui apenas três anos de escolaridade.
Como não teve oportunidade de estudar quando garoto, ele resolveu voltar à escola quando tinha 20 anos de idade. “Fazia uma semana que eu estava freqüentando as aulas, estava gostando bastante”, conta. Isso até resolver fazer uma pergunta à professora.
“Disse para ela que não estava conseguindo entender a matéria. Ela virou para mim e disse: ‘Se está muito difícil é melhor você desistir’”, afirma. Pereira entendeu o recado e nunca mais voltou a estudar.