Bairros

Em duas décadas, Ceja triplica atendimento

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Nos últimos 21 anos, o curso de educação de jovens e adultos (Ceja) da prefeitura triplicou seu atendimento em Bauru. Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação, em 1986, ano em que foi criado, o projeto atendia 480 pessoas. Hoje já são 1.420 alunos em toda a cidade. O número de salas de alfabetização também aumentou de maneira significativa.

No começo, eram apenas 24 salas; atualmente, já são 71, espalhadas por 48 bairros. Inicialmente as classes estavam mais concentradas nas zonas periféricas do município. Hoje, porém, elas podem ser encontradas mesmo nas partes nobres da cidade.

Em mais de 20 anos de existência, o programa de alfabetização de adultos passou por grandes transformações. Marilene Franco de Souza fez parte da primeira turma de educadores de jovens e adultos de Bauru. Na época ela tinha 25 anos e foi trabalhar em uma escola do Jardim Petrópolis (zona oeste da cidade).

“Naquele tempo, quem trabalhava no projeto não era nem chamado de professor. Éramos apenas monitoras”, recorda. Atualmente ela é diretora do Ceja. Dulcinéia Dittrich, 52 anos, também está no programa desde 1986. “No começo, era difícil. As salas ficavam em regiões distantes da periferia e ouvíamos falar muito a respeito da violência”, relembra.

Dittrich era monitora de uma sala de alfabetização localizada no Núcleo Nove de Julho, zona noroeste de Bauru, na época um mutirão de moradias populares. “Lembro que não havia muitas casas no bairro. Para chegar até a escola, eu tinha de atravessar várias quadras desertas”, conta.

As educadoras reconhecem que o trabalho se tornou mais fácil nos dias atuais. “Hoje em dia, existem mais salas em funcionamento. Antigamente tínhamos de enfiar o pé no barro, literalmente, para trazer os alunos até nós”, afirma Dittrich. Ela fala a respeito do trabalho de “caça” aos estudantes, que ainda hoje é feito pelas 57 professoras do Ceja.

“A partir de levantamentos feitos pelas escolas públicas nos bairros, identificamos regiões onde a incidência do analfabetismo é maior. A partir daí, passamos a realizar visitas às casas para tentar convencer os moradores a freqüentar o projeto”, explica Aparecida Idalina Rover, diretora da divisão de educação de jovens e adultos da Secretaria Municipal de Educação.

O trabalho de “recrutamento” não é dos mais fáceis. “O problema é que muitas pessoas têm vergonha da situação em que vivem e acabam não admitindo que são analfabetas”, explica Rover. Nessas ocasiões, as educadoras precisam ter paciência redobrada. “Elas conversam bastante com os moradores para tentar ganhar a confiança deles”, diz a diretora.

Levar o aluno para a escola é apenas a primeira das inúmeras barreiras que as educadoras têm de superar. A maior dificuldade que elas enfrentam, na verdade, é fazer com que os jovens e adultos freqüentem o curso até o final. “Nem sempre temos êxito. Grande parte de nossos alunos é migrante e não tem moradia fixa na cidade. Hoje eles podem estar em um endereço, amanhã em outro”, diz Rover.

Para minimizar o problema, os responsáveis pelo projeto procuram motivar ao máximo os alunos. “Caso não seja possível participar do curso todo, pedimos que eles tentem pelo menos terminar o semestre”, diz ela. O Ceja é um supletivo de 1.a a 4.a série, dividido em módulos, com duração máxima de dois anos.

“Cada semestre eqüivale a uma série completa do ensino básico”, explica Rover. Para freqüentar o programa, os alunos não precisam apresentar histórico escolar. “Costumamos fazer testes para aferir o nível de aprendizagem de cada pessoa”, diz ela. As aulas são oferecidas em salas da rede municipal de ensino e em instituições conveniadas

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