Saúde

Hipotireoidismo, doença silenciosa

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Um leve cansaço, a pele e os cabelos secos, unhas quebradiças e alguns quilos a mais. Sintomas comuns a várias doenças mas que podem, também, estar relacionados a um problema que vem afetando cada vez mais mulheres: o hipotireoidismo.

Detectado por um simples exame de sangue, o TSH, o hipotireoidismo requer tratamento com hormônios sintéticos que devolvem ao organismo a mesma quantidade dos hormônios naturais que a glândula tireóide não está conseguindo produzir. Em alguns, casos durante meses ou anos. Em outros, para sempre.

Neste último caso se encaixa quem tem a “doença autoimune”, chamada pelos médicos de Doença de Hashimoto, que faz com que anticorpos produzidos pelo próprio organismo agridam a glândula, chegando – caso não se ataque a causa - a destruí-la. A dosagem precisa do hormônio (vários exames devem ser feitos para o diagnóstico preciso) “acalmam” o organismo, liberando a quantidade exata que precisa circular pelo sangue e cessando os sintomas desagradáveis que a insuficiência possa estar causando.

Joana Reis, de 49 anos, somente descobriu o hipotireoidismo depois de sofrer uma tentativa de seqüestro relâmpago, quando recorreu ao seu ginecologista com queixas de menstruação incessante. “Achei que por conta do episódio traumático e pela idade havia entrado na menopausa”, conta.

Os exames mostraram que o fim de seu ciclo menstrual ainda vai demorar alguns anos (as taxas estão normais), mas que o TSH, o hormônio tireoidiano, encontra-se alterado. “O médico me indicou um endocrinologista, pois além de afetar a pele, os cabelos, as unhas, causar muito sono e reter líquido, o hipotireoidismo pode descontrolar o ciclo menstrual, causando a falta ou o excesso das regras”, explica Joana.

Embora também possa afetar os homens – geralmente numa faixa etária superior a 50 anos –, o hipotireoidismo é mais comum em mulheres após o parto ou na pré ou pós-menopausa.

O endocrinologista bauruense Luiz de Oliveira explica que os remédios para a doença funcionam como um combustível para o organismo que fica lento. “O corpo lembra um carro com o freio de mão puxado”, compara. Para “engatar” há necessidade de grande esforço caso o tratamento não seja iniciado e preciso.

Reposição e indicação

Especializada em endocrinologia e nutrologia do Centro Integrado de Terapia Nutricional (CITEN), de São Paulo, a médica Ellen Simone Paiva concorda com seu colega de Bauru e explica quando a reposição hormonal se faz necessária: na doença autoimune, mesmo que o paciente não tenha manifestações expressivas da doença.

“A doença tireoidiana autoimune requer a reposição hormonal em duas condições. A primeira delas é a progressiva redução da produção do hormônio tireoidiano, que deve ser reposto para adequar o nível hormonal à quantidade normal produzida pelo paciente. A segunda condição é o bócio, ou seja, o aumento de volume da glândula tireóide sem redução da produção hormonal“, aponta Paiva.

Nesse último caso, a redução da produção hormonal é questão de tempo, pois logo se manifestará também. Fora essas duas condições, não há indicação de reposição hormonal na tireóide autoimune ou de Hashimoto.

Paiva tranqüiliza os pacientes que temem contra-indicações dos hormônios: “Quando indicados, os hormônios tireoidianos geralmente não causam nenhum problema à saúde das pessoas, principalmente porque são usados em pessoas com redução de tais hormônios e são fabricados através de engenharia genética, ou seja, são idênticos ao nosso próprio hormônio tireoidiano”, aponta a médica.

A médica Cibele Cabogrosso, que atua em Bauru, conjuga da afirmativa. Para ela e Ellen Simone Paiva, dizer que esses hormônios fariam mal a alguém seria o equivalente a dizer que o próprio hormônio dessas pessoas poderia fazer mal a elas.

“O que pode acontecer é o uso indevido desses hormônios por pessoas que já possuam hormônios normais, como é o caso do uso indevido desses medicamentos em fórmulas emagrecedoras. Aí sim, eles podem causar muito mal, pois, adicionados aos hormônios que a pessoa já tem, normalmente irão desencadear um estado de excesso de hormônio tireoidiano o que imita a doença chamada hipertireoidismo com taquicardia, tremores, insônia, agitação, perda de peso e até problemas cardiológicos graves”, aponta Cibele Cabogrosso.

O hormônio tireoidiano usado na prática clínica pode acarretar aceleração dos batimentos cardíacos e quando empregado em pessoas idosas ou que possuam algum tipo de problema cardíaco prévio deve ser introduzido em doses pequenas, sempre no intuito de evitar o excesso hormonal. “Somente o excesso pode causar mal”, diz Ellen Simone Paiva, mestre em medicina na área de nutrição e diabetes pela Universidade de São Paulo (USP).

____________________

Glândula terrorista

“Terrorista” é assim que a glândula tireóide é classificada pelo médico Antônio Carlos do Nascimento, autor do livro “Tireóide para Todos”, recém-lançado e já disponível nas livrarias. A definição se deve ao fato das doenças da tireóide evoluíram sutilmente, desestruturando o status orgânico às vezes ao limite da vida.

Nascimento informa que 5% da população apresenta algum tipo de sintoma relativo à tireóide e que diagnosticar eventuais problemas é simples. Segundo ele, saber o que o mau funcionamento dela pode causar e os tratamentos existentes “podem salvar a vida, melhorando a qualidade de vida dessas pessoas, em harmonia com o seu organismo”.

O médico lembra que no caso do hipotireoidismo tudo no corpo começa a funcionar mais devagar: o coração bate mais lento, o intestino fica preso, a memória diminui, o cansaço aumenta, aparecem dores musculares e das articulações, sonolência, pele seca, ganho de peso, aumento dos níveis do colesterol e até depressão.

Comentários

Comentários