Trabalhos científicos recentes vêm apontando também o surgimento de doenças tireoideanas relacionadas a fatores nutricionais. O primeiro alimento relacionado à indução de doenças tireoidianas é a soja, bem como seus derivados, apontados como responsáveis em várias publicações científicas por induzir o aumento do volume tireoidiano e favorecer o aparecimento do bócio, em animais de laboratório e em crianças alimentadas com o leite de soja.
“O outro alimento que favorece o desenvolvimento da doença são as algas, muito utilizadas na comida japonesa, e, atualmente, também muito consumidas pela população ocidental, principalmente nos grandes centros, como São Paulo”, afirma a endocrinologista Ellen Paiva. A médica explica que quanto maior a profundidade da água de onde a alga é retirada, maior será a salinidade e a quantidade de iodo presente na alga.
Para garantir a produção do hormônio tireoidiano, a tireóide precisa do iodo, geralmente proveniente dos alimentos e da água. Praticamente todo iodo que se encontra presente no corpo humano é absorvido pela glândula tireóide, a partir do sangue. Entretanto, a concentração de iodo no solo e na água é muito variável e quando é baixa, propicia uma doença carencial muito comum em várias regiões do mundo: o bócio endêmico.
“Na gestação e na infância, a deficiência de iodo alcança sua marca mais terrível: o retardo mental. Na vida adulta, ela se prolonga, gerando pessoas totalmente incapacitadas para o convívio social, aprendizado e trabalho”, afirma a endocrinologista Ellen Simone de Paiva.
No Brasil, vários inquéritos populacionais sobre as deficiências de iodo, até 1995, apontavam regiões a oeste do País como as de maior prevalência do bócio endêmico. Os Estados de maior risco eram Maranhão, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Rondônia e Acre. Até então, as leis e decretos federais que obrigavam a adição de iodo ao sal não eram cumpridos e o que se via era a persistente doença carencial.
Em março de 1995, o governo federal sancionou a lei úmero 9005/95, em que o Ministério da Saúde passaria a ser o responsável pela distribuição do iodo à indústria salineira, que, por sua vez, deveria adicioná-lo ao sal, nas proporções fixadas pelas autoridades sanitárias (entre 40-60mg/kg de sal). Nos últimos anos, foi possível manter a quase totalidade do sal para o consumo doméstico e para o uso animal com a suplementação necessária de iodo. Este fato repercutiu de maneira positiva nos Estados apontados, anteriormente. Houve decréscimo do bócio em crianças e melhoria da função da glândula tireóide nestas regiões, informa a endocrinologista.
Em maio-junho de 2000, foi feito o último levantamento no território brasileiro, analisando estudantes de 21 municípios. As dosagens do iodo urinário revelaram níveis bem acima dos normais, indicando uma ingestão excessiva de iodo. Além disso, as amostras de sal das residências dos pesquisados revelavam níveis de iodo acima das preconizadas (60mg/kg de sal). Concluiu-se que a concentração de iodo no sal estava acima do recomendado pelo Ministério da Saúde.
Os produtores de sal alegaram, na época, que os limites de 40-60 mg eram muito próximos e que foram autorizados a ampliá-los para 40-100 mg, medida que não foi discutida com o Ministério da Saúde. Recentemente, nova determinação federal fixou a alteração do limite para 20-60mg/kg, procurando corrigir para níveis aceitáveis a ingestão do iodo.
O excesso de iodo na alimentação pode ser prejudicial de várias maneiras. Em determinados pacientes pode desencadear a produção excessiva de hormônios da tireóide - o hipertireoidismo. Em outros, pode desencadear uma inflamação crônica da tireóide, com produção de anticorpos antitireoideanos. Como medida preventiva, é recomendável a vigilância contínua sobre a quantidade que ingerimos diariamente desta substância.