Rio - Duas pessoas morreram e nove ficaram feridas depois de terem sido atingidas por uma marquise de cerca de duas toneladas, que desabou no fim da manhã de ontem, em Copacabana, na zona sul do Rio. A estrutura obstruiu a única entrada do Hotel Canadá, impedindo que hóspedes saíssem e dificultando o trabalho de resgate das vítimas. De acordo com informações do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), a análise do material revelou que a cobertura passou por obra de conservação, mas foi utilizado material inadequado, que acabou sobrecarregando a marquise.
O acidente ocorreu por volta das 11h, numa das via mais movimentadas do bairro, a avenida Nossa Senhora de Copacabana. Segundo relatos, a estrutura cedeu aos poucos, num efeito dominó, o que permitiu que algumas pessoas escapassem. Testemunhas também contaram que três funcionários faziam reparo no letreiro luminoso e caíram com a marquise. Um deles ficou ferido. Uma equipe de 45 bombeiros utilizou serras elétricas, pás, enxadas e cabos de aço para liberar os feridos.
A pedestre Maria Isabel Noronha de Souza Cardoso, 80 anos, e sua acompanhante, identificada como Simone, morreram. “Ouvi um estrondo e corri para ver o que era. A poeira subiu e quando começou a baixar, vimos as pernas das pessoas presas. Foi horrível”, contou o estudante de jornalismo Leandro Arent. “Vi dois turistas rastejando para sair. Parecia que uma bomba havia explodido, que era ataque terrorista”, contou o aposentado Jubem Cardoso, 66 anos.
Dentro do hotel, entre 30 e 50 hóspedes, além de funcionários, entraram em pânico. Eles não tinham como sair. Somente às 14h30 a portaria foi desobstruída. “Podíamos ver as pessoas feridas, sob os escombros. Os bombeiros entraram por uma janela e fizeram o resgate por dentro do prédio de duas vítimas”, contou o comerciante paulista Airton Van Nentgen, 33 anos, que ficaria na cidade até sábado, mas decidiu voltar a São Paulo ontem à noite.
Falha
De acordo com o presidente do Crea, Reynaldo Barros, um técnico da entidade esteve no local e constatou que a marquise passou por obra de reforço. “Nossa análise preliminar é de que foi feito um enxerto com material de segunda categoria, como entulho de obra, que depois foi concretado. Essa intervenção provocou sobrecarga”, afirmou Barros.
Para ele, os relatos de que a cobertura caiu num efeito dominó indicam que uma das cintas ou vigotas (estrutura da fachada, na horizontal, que liga à marquise) cedeu. “Primeiro rompeu um pedaço. Houve a transferência de peso para as demais vigotas, que não suportaram”, afirmou.
O engenheiro Alexandre Duarte, professor de Tecnologia da Construção da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também esteve no local. Segundo ele, os vergalhões da marquise estavam corroídos. “As peças originalmente tinham diâmetro de meia polegada (12 milímetros), mas em alguns pontos o diâmetro era de menos de 2 milímetros”, afirmou. “É possível quebrá-los com a mão”.
O Hotel Canadá, com 69 quartos e diária de solteiro de R$ 160,00, passou por reforma da fachada recentemente. As escoras da marquise foram retiradas no sábado passado. A cobertura não foi contemplada na obra. “Vamos investigar se a empresa contratada sobrecarregou a marquise de alguma forma. Se isso ocorreu, eles serão chamados à responsabilidade”, afirmou o advogado do Canadá, Ely Machado.
Ele informou que o hotel tem seguro e as vítimas serão indenizadas. Segundo o advogado, o edifício de apartamentos foi construído na década de 50 e transformado em hotel nos anos 70. Machado não soube informar se a marquise passou por reforma. A reportagem tentou entrar em contato com a Art Plac, empresa responsável pela reforma da fachada, mas ninguém atendeu as ligações.
Em março do ano passado, o desabamento da marquise de um bar causou a morte de três pessoas e deixou quatro feridos em Vila Isabel, zona norte da cidade. O proprietário do bar Parada Obrigatória já tinha sido notificado duas vezes, em 2004 e em 2005, por falta de laudos estruturais solicitados pela prefeitura.
Apesar do descumprimento da norma, o estabelecimento não foi interditado. A estrutura da marquise do Parada Obrigatória, de 20 metros de extensão, não era impermeabilizada e estava corroída pela ação contínua das chuvas.
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Pendurado não cair
Rio - Um estalo foi o único aviso para os operários que estavam sobre a marquise que desabou. Nos segundos seguintes, os escombros.
“Eu só vi parte do reboco caindo. Corri para a janela e me pendurei. Uma funcionária do hotel me ajudou a subir”, contou o montador de obras Jorge Henrique Vianna, 20 anos.
Junto com Vianna estavam José Carlos Florentino, 39 anos, Thiago Menezes Vargas, 22 anos, que se feriram, e um outro operário, que pulou dentro do hotel antes de a marquise ceder. “Meu irmão rolou até a rua e quase foi atropelado por um carro. Depois ele ainda tentou salvar uma das mulheres que estavam debaixo da marquise, mas viu que ela não tinha mais pulso (sinal vital) e se desesperou”, contou a irmã de José Carlos, Sandra Florentino.
A corretora de imóveis Aparecida Marques, 58 anos, pesquisava preço de materiais de construção para o apartamento que comprou quando foi atingida pelos escombros. Ela teve o fêmur deslocado, ligamentos do joelho esquerdo rompido e um ferimento na cabeça. Cecília Fernandez, 71 anos, de Santos (SP), que estava hospedada no hotel desde a última quarta-feira, sofreu escoriações leves. Mas, como foi obrigada a ir para o hospital municipal Miguel Couto, perdeu a viagem de volta para sua cidade. “Estava subindo o degrau, ouvi o barulho e fui jogada lá dentro (do hotel).”
Além de João Carlos, Thiago e Aparecida permaneciam internados no hospital ontem à noite a aposentada Gilda Gouveia Barbosa, 63 anos, Roberto Machado da Silva, 56 anos, e Maria Augusta de Salamanca e Medeiros Sampaio, 56 anos.