Depois do almoço, o pai se dirigiu ao filho de 12 anos e disse: “Filho, você é totalmente livre. Como você gostaria de passar a tarde? Fazendo as tarefas da escola ou brincando com os amigos? Você escolhe!”
O filho então respondeu: “Bom, eu gostaria de brincar com meus amigos”. O pai imediatamente contestou: “Não, não, esta não é a opção correta. Você só deverá sair de casa quando acabar os deveres da escola. Vou perguntar de novo. O que você quer fazer nesta tarde, os deveres da escola ou brincar com os amigos?” Contrariado, o filho olhou para o pai e disse: “Tudo bem, eu escolho fazer a tarefa da escola”. O pai sorriu e disse ao filho: “Estou contente porque você fez a escolha certa!”
Com certeza, todos conhecem a narração bíblica sobre Adão e Eva (Gn 3, 1-24). Entre outras reflexões, esta narração mítica nos ensina que entre os seres humanos e os outros animais do planeta existe uma diferença fundamental.
Todos os seres vivos se alimentam do que o texto chama de a “árvore da vida”. Em outras palavras, todos os seres viventes possuem fome e sentem sede, crescem e se desenvolvem, se acasalam ou encontram alguma forma de se perpetuar como espécie.
O ser humano, porém, além de se alimentar da “árvore da vida”, experimenta o prazeroso, mas também doloroso, fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”.
Em outras palavras, enquanto os outros seres vivos desenvolvem-se condicionados às leis naturais, o ser humano constrói sua história, transforma sua natureza, define o seu destino. Sem possuírem a capacidade de raciocinar, a vida dos outros seres vivos é muito mais simples, afinal, a natureza para eles já está pré-determinada, sem os problemas morais e as decisões éticas que nós, humanos, temos de enfrentar.
As categorias de bem e mal, na verdade, não existem entre os animais. Justamente por isso, a natureza não pode ser idealizada ou romantizada. Nela encontramos, por exemplo, a seleção de espécies, a eliminação de deficientes, a morte dos mais idosos, fenômenos agressivos que podem matar milhões de seres vivos, como maremotos, terremotos, etc.
Todos estes fenômenos naturais mostram que as leis de Deus e as leis da natureza não são as mesmas. Nem tudo aquilo que é natural, pode ser considerado, pelos olhos humanos, um fenômeno bom.
Todas as criaturas viventes são vítimas de sofrimentos físicos e estão destinadas a morrer, mas somente o ser humano possui consciência destes fatos e a liberdade de alterar as leis naturais e se proteger das forças destrutivas existentes na natureza aumentando sua qualidade e perspectiva de vida. ”As coisas em si, não são boas nem más. É o pensamento que as torna desse ou daquele jeito” (Shakespeare).
A partir do momento em que o ser humano iniciou o desenvolvimento da consciência racional, ou seja, começou a se alimentar da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, as atividades de comer e trabalhar, ter filhos e criá-los, desenvolver-se e organizar-se em sociedade já não seriam mais coisas simples, como são entre os animais.
Justamente esta característica de adequar o mundo às suas necessidades e vontades significa teologicamente a expressão “imagem de Deus”. O ser humano se sente uma imagem semelhante de Deus, pois possui a liberdade para fazer escolhas, determinando o que é bem e o que é mal. Esta liberdade não consiste em uma liberdade induzida, na qual nos é determinado o que é bom ou ruim. A pessoa humana, na sua experiência de vida, descobre o que pode lhe trazer mais vida ou conduzi-la à morte. Para isso, é necessário que o ser humano assuma a responsabilidade sobre a vida.
Se existe um pecado na narração bíblica de Adão e Eva, este não é o fato do ser humano provar da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, mas sim o fato de negar o seu próprio ato humano de escolher.
Quando Deus pergunta a Adão se ele comeu da árvore que Ele o havia proibido de comer, Adão joga a culpa sobre Eva, esta por sua vez, sobre a serpente. Aqui encontramos o pecado da dissimulação, ou seja, o medo de assumir nossos atos e enfrentar suas conseqüências.
Como Deus deixou a natureza desenvolver-se gerando suas próprias leis, Deus respeita a nossa liberdade de fazer nossas experiências e aprender com elas. Acredito profundamente que Deus não espera que nós, seres humanos, representemos o papel de “bons meninos” e digamos sem autenticidade: “Só fiz o que o Senhor me mandou”, mas que sejamos verdadeiramente livres e digamos com responsabilidade “quer o Senhor goste ou não, pensei muito e é isto que considero certo”.
Para refletir melhor sobre nossa liberdade, sobre a condição do ser humano em seu mundo natural e, principalmente, sobre a presença de Deus em nossa história é interessante saborear o livro “Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas” de Harold S. Kushner (Ed. Nobel).