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Parabéns, sanduíche


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Inventado por Casimiro Pinto Neto em 1937, o sanduíche bauru está completando 70 anos de existência. O bauruense que quiser comemorar a efeméride terá que ir a São Paulo. Por enquanto não vi nenhum evento ser anunciado em homenagem a esse mata-fome que caiu na simpatia muitos brasileiros e é vendido em fast-foods até do exterior. José Carlos Alves e Souza manda um e-mail convidando a mim e a Eliane para a festa que acontecerá no dia 22 de março, lá no Largo Paissandu, onde o Ponto Chic também estará comemorando 85 anos de existência. Vai ter selo comemorativo, cinzeiros, camisetas, bonés, copos, sacolas e bolachas de chopp. Aqui, na city sem sex, a notícia boa vem do Jad Zogheib, bauruense de Arealva. Consciente da necessidade de preservar o nosso tesouro entrou em conversações com o dono do Habib‘s, que estudou aqui e é casado com uma bauruense, para introduzir o nosso sanduíche no cardápio da sua rede. Está tudo certo para começar em 25 das 250 lojas espalhadas pelo País e o México. Esse bauruísmo é que nos anima. Haverá de ser um sucesso.

A história do inventor, Casimiro Pinto Neto, todos nós conhecemos, embora detalhes tenham sido escondidos pelos historiadores locais. Era ele estudante de Direito no Largo São Francisco. Boêmio, gostava de jogar snooker a dinheiro – como se dizia antigamente. Para não se afastar da mesa de jogo pedia ao garçom que pusesse fatias de rosbife e queijo derretido no pão. Casimiro era um sujeito charmoso – diziam seus contemporâneos. Locutor de rádio de prestígio pelos noticiosos que apresentava na Rádio Panamericana. Chegou a Repórter Esso. Em pleno Estado Novo, sob a ditadura Getúlio Vargas, jornalista com acesso a milhares de ouvintes contava pontos. O brasilianista John Foster Dulles (filho do famoso secretário de Estado norte-americano do tempo da Guerra Fria), conta em seu livro “A Faculdade de Direito de São Paulo e a Resistência Anti-Vargas” (Edusp) um episódio que talvez explique o fato do jovem Casimiro não sair da mesa de sinuca e conseguir cursar uma das escolas mais puxadas do País. Um manifesto dos estudantes denunciou que o reitor Sebastião Soares de Faria, partidário do governo, “Conseguiu encontrar entre acadêmicos necessitados, dois ou três elementos suficientemente faltos de caráter e os mantém como espiões pagos, no meio acadêmico, para informar o que se passa nesse meio, a fim de que possa organizar a sua lista negra de perseguições”. Os redatores da circular ainda acrescentaram: “Ninguém ignora que sob a gestão direta do Sr. Soares de Faria processou-se a maior fraude de que se tem conhecimento na história da Faculdade – o caso do sr. Casimiro Pinto Neto, vulgo Bauru, que obteve diploma de bacharel na turma de 1939, na qual não estava matriculado... após exame clandestino” (p. 150).

Bem, a memória desse filho da terra tornou-se importante para nós, graças ao seu sanduíche. O bauru deveria ser objeto de um monumento em praça pública. Seu Antonio, garçom do Ponto Chic no Largo Paissandu, salvou a tradição, anos atrás, ao convencer o dono do prédio a deixá-lo reabrir o restaurante que permanecera fechado durante dois anos. O dono anterior fora despejado porque o senhorio, de pirraça, pedira o prédio na Justiça para uso próprio, mas preferiu mantê-lo fechado. O hoje ex-garçom, pai do José Carlos que nos convida, revelou-se um hábil empresário. Ganhou dinheiro com o sanduíche bauru legítimo, o que lhe permitiu abrir filiais em Moema e Perdizes. Em agradecimento a Casimiro Pinto Neto mandou fazer o seu busto em bronze, que lá está no Ponto Chic original. Toda vez que passo por lá Zé Carlos pede uma vista aérea de Bauru mais atualizada, para substituir a que está na parede. Já tentei com três prefeitos. Em vão. No tempo do Aldire Guedes, outro ouro de Bauru, era mais fácil. Se vivo fosse o velhinho embarcaria no avião do Aeroclube, já sem a porta para garantir um ângulo de visão mais amplo. Com sua Speed Graff de negativo de vidro, certamente nos entregaria a foto (sempre magnífica) no dia seguinte, sem custo. Costumava dizer que o interesse de Bauru compensa qualquer sacrifício. De minha parte, ainda não consegui nem um chaveiro para mostrar aos amigos.

Engraçado que outro garçom, o Zé (Francisco) do Esquinão, também ajudou a salvar as tradição do legítimo bauru. Quando “azelites” não se mexem, os mais humildes tomam a frente. Começou a servir os fregueses do seu bar, lá do centro velho, com a receita original e trabalhou na sua divulgação até morrer. Percebeu que seria uma pena deixar cair no esquecimento essa refeição ligeira, de sabor tão delicado. Foi assim que Bauru virou bauru substantivo. Ganhou verbete no Dicionário Houaiss, embora, lamentavelmente, com ovo na receita.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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