Na porteira da entrada da fazenda, os irmãos Bruno, 9 anos, e Alessandra Killer, 10 anos, e a vizinha Ana Heloísa Vicentino, 7 anos, esperavam, ontem pela manhã, o ônibus da prefeitura passar para levá-los à escola, no distrito de Tibiriçá. Eles ficaram mais de uma hora aguardando o veículo, que não apareceu. Essa é a terceira semana que eles não vão às aulas, por falta de transporte. As más condições de trechos da estrada de terra impedem a passagem do ônibus. Enquanto isso, no Jardim São Judas, em Bauru, alunos da escola Walter Barreto Melchert, no Núcleo Octávio Rasi, enxadas e taparam os buracos que impediam o ônibus de chegar até suas ruas.
Ontem, Bruno e Alessandra acordaram às 6h, trocaram de roupa, tomaram café e foram para a porteira da fazenda onde moram. Encontraram com a vizinha Ana Heloísa, que também se preparou para as aulas. Desistiram depois de esperar mais de uma hora pelo ônibus contratado pela prefeitura para o transporte escolar. “Me disseram que hoje (ontem) teria ônibus, por isso eles foram até a estrada. E tiveram que voltar para casa outra vez”, conta Lucimara, mãe das crianças.
Os dois cursam a 3ª série do ensino fundamental e até ontem não tinham assistido nenhuma aula neste ano. Revoltados, os pais procuraram a prefeitura, que informou que a estrada que liga essas fazendas à Escola Estadual Major Fraga estava sem condições para o tráfego de ônibus por conta de estragos causados pelas últimas chuvas. Bruno ainda vestia o uniforme da escola quando a reportagem do Jornal da Cidade chegou à fazenda. Ele e a irmã contam que sentem falta dos colegas de classe. “Eles não foram em nenhuma aula neste ano. Vão começar perdidos nas matérias”, lamenta Lucimara.
Ana Lúcia Vicentino, mãe de Ana Heloísa, conta que um dos moradores da região chegou a propor levar e trazer as crianças todos os dias. “Ele cobraria R$ 5,00 para levar e outros R$ 5,00 para trazer. Mas isso seria cobrado por dia e fica muito pesado”, avalia. Lucimara conta que chegou a considerar a oferta. “Mas com dois filhos, sairia caro demais”, calcula.
Vicentino afirma que já paga transporte para a filha mais nova, Cláudia, que está na pré-escola. “A prefeitura não dá transporte para crianças que não estão no ensino fundamental”, conta. O custo da gasolina é dividido com outra mãe da região, que também tem que levar uma filha para a pré-escola. “Mas como os horários de saída são diferentes, não dá para levar a Ana Heloísa também. Ela chegou a ir na primeira semana, mas a professora não quis mais liberar a minha filha mais cedo para poder pegar a carona”, explica. “Eu queria muito ir à escola. Hoje (ontem) tinha educação física”, conta a menina.
Cerca de 10 crianças de fazendas da região não conseguem chegar à escola. De acordo com os pais, o ônibus atende somente a parte alta da estrada. Porém, a reportagem do JC trafegou ontem à tarde sem problemas pela via, que foi emergencialmente reparada pela prefeitura anteontem.
Reparo
De acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Walace Garroux Sampaio, que responde pela Secretaria de Agricultura, responsável pela manutenção das estradas rurais, anteontem a subprefeitura de Tibiriçá reparou emergencialmente os pontos críticos da estrada. Com o conserto, ficou transitável para carros, caminhonetes e caminhões, mas a passagem para ônibus ainda não estava garantida. A empresa contratada para transportar as crianças informou a Sampaio que amanhã tentaria fazer o percurso para buscar e levar as crianças à escola.
Em nota enviada pela assessoria de comunicação da prefeitura, a Secretaria Municipal de Obras informou que a equipe responsável pela recuperação das vias de terra está trabalhando em outros pontos da cidade. Os locais que o JC apontou já estavam incluídos na programação da pasta.
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Atraso
Segundo a diretora regional de Ensino, Vera Nilce Jarussi, a situação das crianças de Tibiriçá chegou ontem à diretoria. “Assim que um dos pais dos alunos nos procurou, entramos em contato com a prefeitura, que nos informou da inviabilidade da estrada”, conta. Pelo convênio firmado com a prefeitura, a Secretaria de Estado da Educação repassa os nomes dos alunos e o dinheiro para o transporte e a prefeitura contrata a empresa e fiscaliza o serviço.
Sobre as semanas sem aula, Jarussi conta que o conteúdo pedagógico que as crianças perderam será reposto. “Vamos ver com a direção da escola o número de alunos que perderam as aulas, suas séries e de que forma esse conteúdo será reposto. Vamos colocar tudo em dia”, garante.