Política

Coube abre o jogo e revela desilusão

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 8 min

Além dos motivos pessoais envolvendo suas atividades profissionais, o empresário Caio Coube, que ontem renunciou à presidência do PSDB e não irá mais disputar a prefeitura, conforme adiantou com exclusividade o JC, revelou que o desencanto com a política também foi outro forte motivo para deixar as atividades partidárias em segundo plano em sua vida.

Em entrevista ao JC, Coube abre o jogo e, em tom de desabafo, escancara todas as razões que o levaram a deixar a liderança da legenda tucana, como a já propalada intenção de dedicar-se à sua indústria e comércio de moda praia. Demonstrando humildade, classificou-se como um “juvenil iniciante” na política, ressaltando a existência no partido de pessoas mais experientes e entendidas na arte que ele próprio.

Crítico e com a língua afiada, o empresário não poupa críticas às redes de intrigas políticas, uma das razões de seu desapontamento com as questões partidárias, e aos vereadores bauruenses, que para Coube deveriam deixar a cômoda posição de “pedras” para o desafio de se tornarem “vidraças”, ou seja, deixarem o Legislativo para encararem a administração da Prefeitura. “Eles deveriam parar de pensar em projetos pessoais eleitorais e convergirem para uma proposta de mudança da cidade”, atacou.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

JC – Por que você renunciou à presidência do PSDB?

Coube - Quero me dedicar à minha vida pessoal. Estou indo para o segundo ano do meu empreendimento e agora estou preparando um lançamento mais agressivo em nível nacional montando uma equipe de vendas para atuar em todo o Brasil e introduzir a marca no mercado. São atividades que exigem dedicação integral e, na verdade, o cargo de presidente não é como um cargo eletivo que demanda muito mais atenção, mas mesmo assim dispersa. O PSDB é organizado, funciona direitinho, tem reuniões mensais da executiva, do diretório e algumas atividades de representação, mas agora vai entrar em um esquema mais forte de preparação de chapas e disputas internas para ir à convenção. Não posso perder tempo com isso.

JC – Você ainda pretende ser candidato?

Coube - Não possuo entusiasmo pelo tema.

JC – Nem o resultado das últimas eleições, quando perdeu por poucos votos para o Tuga, o incentiva a disputar novamente a Prefeitura?

Coube – Sinceramente, é algo para o qual não consigo me entusiasmar. Isso porque, em uma análise fria, a situação de Bauru é muito difícil e complicada financeiramente, fisicamente e administrativamente.

JC – Você continuará atuando no partido? Irá se desfiliar dele?

Coube – Não me desfiliarei e continuarei atuando, mas de forma menos intensa. É lógico que será em um ritmo muito mais light. Não sou candidato, não sou dirigente, sou membro do diretório e simpatizante.

JC – Mas certamente você continuará sendo uma liderança muito ouvida por sua experiência e idéias...

Coube - Não sei se tenho tanta experiência assim, pois nunca ocupei um cargo público. No PSDB tem gente que entende mais que eu de política (risos). Quantos anos o Marcelo Borges, o Ladeira e o Pedro Tobias estão aí no jogo? Nesse aspecto, sou recente e como um juvenil promovido no time que joga apenas 15 minutos do segundo tempo (risos).

JC – Como você vê o processo eleitoral no PSDB? O partido tem bons nomes...

Coube – O partido tem bons nomes. Acho interessante o quadro de candidatos-vereadores em todos os partidos. Acho que chegou o momento de algum vereador deixar de ser vereador e ajudar a enfrentar o que precisa ser enfrentado, comandar o processo de mudanças que precisam ocorrer na cidade e abandonar a posição muito mais cômoda que é a do Legislativo. Eles têm tido um papel importante nos últimos anos na política, mas está na hora de um deles ter um papel mais importante.

JC - Você se refere aos tucanos Marcelo Borges e Toninho Garmes?

Coube - Não, os vereadores em geral, pois todos os candidatos são vereadores. Acho que precisa cair a ficha para a classe política de Bauru, no caso os vereadores com mandato, que eles precisam passar para o lado de lá e passarem a ser vidraça, e não ser a pedra. Seria interessante se a cada quatro anos fosse um. Quem sabe se criasse um espírito para uma convergência maior em torno de esforços para superar as dificuldades.

JC - Você disse que Bauru precisa de mudanças. Quais seriam elas? Um choque de gestão como você defendia durante a campanha?

Coube - Sempre disse isso. Bauru tem um orçamento de R$ 252 milhões, tem R$ 20 milhões para a secretaria de Obras, tem 3.500 quadras sem pavimentação, 7.500 quadras com a pavimentação vencida, o quadro de pessoal, provavelmente em alguns casos, superdimensionado, pouco produtivo e, quando se consegue medidas de enxugamento, o funcionário vai na Justiça, recorre e é readmitido.

A Constituição impede que o administrador municipal tenha autonomia na alocação de recursos, as chamadas verbas vinculadas. Dos R$ 252 milhões do orçamento, R$ 56 milhões são para a Educação, onde sobra dinheiro e o pessoal fica inventando como gastá-lo para atender a legislação. Enquanto isso, a cidade, do ponto de vista físico, permanece em um estado total de penúria e abandono. Então, como administrar isso aí?

JC - Esses foram alguns dos motivos que tiraram sua vontade de ser candidato a prefeito novamente?

Coube - Isso também. Você não tem autonomia nenhuma e a situação é dramática. Tem cara que fica armando casca de banana para o outro, gravando conversinha, botando casca de banana no caminho. É um primarismo e uma verdadeira rede de intrigas de fulano que é brigado com ciclano, que é brigado com beltrano, que não se dá com fulano. A solução está na sociedade civil, na imprensa, porque o político surfa. Convivi com político, que tem instinto de preservação. A preocupação dele é permanecer com o mandato.

JC - Ter um projeto de poder...

Coube - O principal objetivo do político é permanecer com o mandato. Tive muita dificuldade de me adaptar ao meio político por isso também. A cabeça do político convencional é sempre pensar nisso e qual o benefício político que ele terá.

JC - E não gosta de assumir os ônus de decisões impopulares...

Coube - O remédio amargo ninguém quer tomar ou dar. Bauru é um paciente terminal e só vai melhorar com um remédio amargo. Há quanto tempo o prefeito local está dizendo que a prefeitura não agüenta pagar o plano de saúde dos familiares? Desde que ele assumiu. Por que não faz o que tem de ser feito? Muito provavelmente porque ninguém vai apoiá-lo nessa iniciativa que, além de uma cacetada de outras, são absolutamente imprescindíveis.

O pessoal vai empurrando com a barriga e não enfrenta de forma clara, transparente, direta e comprometida com as mudanças e melhorias. Como vamos melhorar as condições da periferia? Vi uma declaração do prefeito em uma revista que asfaltaram 30 quadras, enquanto há 3.500 sem asfalto. É um estado de paralisia geral e ninguém se incomoda.

JC - Pelo que senti não é exagero dizer que você está desencantado com a política?

Coube - Lógico. É complicado isso sabe (ri). Meu desapontamento não é só local, mas também nacional, principalmente depois de ver um cara sério como o ex-governador Geraldo Alckmin perder do jeito que perdeu a eleição para presidência. É complicado.

JC - Suas decisões de renunciar à presidência e à candidatura a prefeito são irrevogáveis ou você ainda poderá reconsiderá-las?

Coube - Acho que não, pois, se você pensar hoje no cenário de Bauru, os principais candidatos são os vereadores. O prefeito (Tuga Angerami) disse que não vai ser, o deputado (Pedro Tobias) está bem lá em sua função, eu que tive votos não vou. Acaba sendo essa turma mesmo que são vereadores. Eles é que têm de amadurecerem, sentarem e pararem com o projetinho pessoal eleitoral de cada um, pensando na proposta e como é que a gente converge para um projeto de mudança. Não sou eu que tenho de ir lá fazer isso. Tudo bem, sou militante e estou há cinco anos no processo, fui candidato a deputado e a prefeito e presidente de partido. Mas quanto tempo esses caras têm mandato? João Parreira, Paulo Madureira, Majô, Futaro, Clemente, Agostinho, Garmes.

JC - Você acha que chegou a hora dos vereadores?

Coube - É a hora de um deles ir para prefeito ou vice, colocando um monte de partido junto. Senão vai ficar a turma do Pedro Tobias e do Marcelo Borges de um lado, o Tuga e o Clemente de outro, o Purini tentando dar rasteira não sei aonde, no Rodrigo Agostinho, o Faria Neto com a turma das viúvas do Tuga. Estou fora disso.

JC - Então dificilmente você reconsiderará suas decisões?

Coube - Exatamente.

JC - Boa sorte então para você nessa nova empreitada em sua vida...

Coube - Que, literalmente, é a minha praia (risos). Quero passar para a história como uma pessoa que construiu empresas, que tive muita responsabilidade pelo sucesso da Tilibra e que agora estou aqui, sendo gestor, financiador, estrategista de um projeto pequeno, minúsculo, mas que conta com todo meu know-how e bagagem.

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