Jornais e tevês têm noticiado, à exaustão, o estado caótico da sociedade brasileira. São crimes brutais, inimagináveis, pedindo explicação. Intelectuais, entidades jurídicas, associações religiosas e ONGs buscam equacionar os problemas através de discussões ideológicas e fórmulas cândidas contra a “opressão carcerária” e contra medidas mais rigorosas para presos de alta periculosidade.
É preciso acabar com firulas, com pseudo-argumentos que defendem a intocabilidade da lei de maioridade penal, que dogmatizam sobre as conseqüências maléficas da punição, que decretam que, neste País, só negro e pobre vão para a cadeia e outros factóides. É preciso, sim, alterar a lei da maioridade penal. É preciso, sim, punir o infrator com rigor. E não é verdade que apenas negros e pobres vão para a carceragem. Mexer, entretanto, em apenas alguns desses pontos é insuficiente para endireitar a bagunça em que se vê atolada a sociedade brasileira.
Esses temas mereceriam um debate mais escancarado, mais amplo, mas não será este o momento. Nesta oportunidade, o intuito é apenas relembrar uma verdade antiga: a importância da família, que continua sendo a instituição mais adequada para educar as pessoas. Qualquer estudante recém-iniciado em sociologia sabe, porém, que a família moderna já não é mais aquele “pequeno Estado” de outrora, centralizado e governado pelo chefe: a vida social, política, econômica e religiosa vem-se desenvolvendo, ou pelo menos deveria desenvolver-se, fora dela; mas, à medida que se reduziu e despojou de certas funções, seu papel se concentrou, e ela ficou pelo menos comprometida com a vida moral.
Essas verdades não podem ser menosprezadas. A educação tem necessidade de paciência, indulgência, dedicação e sacrifício, qualidades que é mais natural esperar dos pais que dos estranhos. Infelizmente, a família vem-se acomodando e negligenciando muitas funções. Enquanto ela continuar nesse ramerrão egoísta, valorizando mais o comodismo que o cumprimento do dever, não sairemos deste caudal de barbárie. Isso é válido para as famílias de todas as classes sociais. Infelizmente, hoje em dia, os pais abdicaram de suas obrigações, esquecendo-se mesmo de valorizar até regrinhas simples de boa educação, de sociabilidade. E é a partir da observância das pequenas normas que o indivíduo vai-se transformando, paulatinamente, num ser social, num cidadão, num homem de bem.
As pesquisas noticiam que, em menos de dez anos, faltarão professores no País. Por quê? Porque ninguém mais tem coragem de entrar numa sala de aula. Além de ganhar uma merreca, o professor está sujeito desde a agressões físicas até a perder a vida, se ousar recriminar o aluno. É moda hoje entrar drogado ou armado na escola. A família desses delinqüentes não está nem aí. Se as coisas caminham nesse pé, imagine-se, então, o que acontece com as mais comezinhas normas de civilidade. “Por favor”, “obrigado” ou “com licença” caíram em desuso.
Nos garotos e garotas que se refestelam nos bancos de ônibus, ou dos jardins, incomodando os vizinhos para estar à vontade; nos jovens que se conservam sentados diante de um idoso ou de uma senhora com uma criança no colo; nos adolescentes que gargalham freneticamente nas lanchonetes ou berram, pela madrugada, nas ruas; no menino que exige dos pais um tênis “de marca”; na criança que grita e sai correndo no restaurante ou exige histericamente uma guloseima ou brinquedo da prateleira do supermercado; estão os péssimos frutos deste individualismo que, para dar mais graves resultados, espera apenas o correr dos anos e as oportunidades.
Enquanto a família, da mais humilde a mais abastada, não entender que deva ser um exemplo de gentileza no trato e de amor ao dever, um instrumento de disciplina com hierarquia, horários, respeito aos direitos alheios, um reduto de vida moral, não vemos com esperança a reversão desse quadro de violência, de delinqüência, que vem minando as forças de nossa sociedade e espalhando inquietude e desassossego. “Tornar-nos o que somos”, dizia Píndaro. Isto é, tornar-nos homens. Tudo mais é acréscimo, por importante que seja.
A autora, Maria da Glória De Rosa, é colaboradora do Opinião - e-mail: mgderosa@uol.com.br