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Insetos ajudam a desvendar crimes

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

China, século 13. Um homem é assassinado a golpes de foice perto de um campo de arroz. No dia seguinte ao crime, o investigador de polícia pede aos empregados daquela propriedade rural que depositem seus instrumentos de trabalho no chão. Em poucos minutos, moscas pousam numa foice específica, que apresenta traços de sangue. Diante da evidência, o dono da ferramenta confessa o homicídio.

O episódio representa um dos primeiros casos de entomologia forense da história e foi narrado em uma edição do Jornal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das universidades pioneiras no estudo, dentro do território brasileiro, dos insetos como forma de descobrir quando uma pessoa foi morta.

A técnica consiste em recolher as larvas e outros insetos que povoam um cadáver em decomposição para, a partir da análise desses seres necrófagos, chegar à data da morte e saber se o corpo foi movido de um lugar para outro. E essa técnica, embora ainda em uma fase embrionária no Brasil, começa a despertar o interesse de biólogos e policiais, inclusive em Bauru.

De acordo com o estágio de desenvolvimento em que se encontra a larva mais velha, por exemplo, é possível saber se os ovos foram depositados no corpo da vítima há uma semana ou há meses. “Os organismos necrófagos levam algum tempo para colonizar o corpo e começar a se desenvolver”, alega o professor Arício Linhares, do Departamento de Parasitologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. Segundo ele, o desenvolvimento dessas larvas vai depender também do clima e do local onde está o corpo.

Se um cadáver for encontrado em um apartamento acima do quarto andar de um prédio, por exemplo, é bem provável que não haja larvas para serem coletadas, porque nessa altura dificilmente chega alguma mosca. A decomposição, nesse caso, seria provocada pela ação de bactérias presentes no intestino grosso da vítima.

Em local aberto, o desenvolvimento dos organismos necrófagos é mais rápido do que se o corpo estiver em um local fechado. Tudo isso influencia na hora de analisar o material coletado, diz Linhares.

Grande procura

No Estado de São Paulo, cidades como Botucatu, Rio Claro e Campinas saíram na frente e já possuem centros avançados de estudo desses insetos. No início deste mês, foi realizado o 1.º Simpósio Brasileiro de Entomologia Forense, na Unicamp.

De acordo com o professor Linhares, a grande procura por inscrições para o evento deu uma dimensão do interesse que o assunto tem despertado no Brasil.

“Tivemos de recusar inscrições porque elas superaram o limite máximo de 220 lugares”, comentou o professor. Segundo ele, o simpósio atraiu de policiais científicos a funcionários de Institutos Médicos Legais (IML) e de Institutos de Criminalística (IC).

Apesar do interesse, cada vez maior, a entomologia forense ainda não faz parte da rotina da investigação policial no Brasil, segundo Linhares. “(A entomologia) é uma coisa nova por aqui. Ela ainda não está na cultura da polícia. Têm algumas pessoas que mostram interesse em usá-la nas investigações, mas elas ainda estão aprendendo como utilizar a técnica”, diz o professor, que coordena as pesquisas que vêm sendo feitas pela Unicamp.

Em Bauru, o auxiliar de necrópsia e bioquímico Wanderlei Cerigato, funcionário do IML, está fazendo um levantamento dos insetos necrófagos que vivem na região. A partir desse estudo será possível saber quais as espécies mais comuns na zona urbana e as que são mais freqüentes na zona rural. O mapeamento vai ajudar a desvendar se uma pessoa foi morta na cidade ou no campo.

Existem insetos que são próprios da zona urbana, outros da zona rural. Se eles forem encontrados fora de seu habitat natural é um forte indício de que houve remoção do corpo, explica o professor João Alfredo Carrara, coordenador do curso de ciências biológicas da Faculdade Fênix e membro da Associação Brasileira de Entomologia Forense (Abef), que também está trabalhando na identificação da fauna necrófaga da região de Bauru.

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