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Violência: além das seqüelas físicas

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Gérson, 62 anos, caminhoneiro aposentado por invalidez, ainda acorda no meio da noite sentindo dores nas costas e na perna esquerda. Algumas vezes, quando o tempo muda, muda também seu humor. A variação brusca de clima faz a perna doer. São resquícios dos tiros que levou na coluna durante um assalto.

Passaram-se 20 anos daquela fatídica noite de outono e ainda hoje sente na mente e no corpo as marcas da violência. O trauma foi tão grande que ele não tem coragem de revelar o nome verdadeiro, com medo de que os assaltantes descubram que ele ainda está vivo. Por isso, o nome no início da matéria é fictício.

Assim como ele, muitas outras pessoas se escondem no anonimato em busca de proteção. São pessoas que tiveram suas vidas afetadas pela ação irresponsável de quem carrega uma arma e a utiliza de forma criminosa.

Estudos apontam que 75% das pessoas expostas a situações traumáticas podem apresentar distúrbios psíquicos e complicações associadas como depressão, ansiedade, fobia e abuso de drogas e álcool.

“Cada um enfrenta o trauma com os recursos de que dispõe. As pessoas podem ter reações violentas, raiva ou necessidade de achar um culpado. Há também reações típicas, como uma intensa angústia, sensação de pânico, diminuição do interesse em atividades rotineiras ou sensação de estranhamento diante de outras pessoas”, disse à Agência Fapesp Maria Helena Pereira Franco, professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora de um grupo de intervenções psicológicas de emergência.

Gérson, que sobreviveu ao assalto, teve seu caminhão roubado quando fazia o transporte de madeira de Mato Grosso do Sul para São Paulo. Depois de rendido pelos assaltantes, ele foi levado para dentro de uma mata, onde levou três tiros na região do abdome. Um dos tiros acertou a coluna e o deixou com seqüelas para o resto da vida. O ex-caminhoneiro se livrou da cadeira de rodas, mas caminha com dificuldade, arrastando a perna esquerda.

Ele conta que de vez em quando entra em depressão e tem pesadelos. Acorda assustado quando sonha que está sendo atingido novamente pelos disparos.

A dona de casa Adriana Regina Solano, 31 anos, relata que o filho de apenas 3 anos teve de passar por acompanhamento psicológico depois de ter sido atingido por cinco balas perdidas, enquanto brincava na rua em frente de casa. “Ele quase não dormia e quando conseguia, acordava gritando”, relembra a mãe. O menino passou por várias cirurgias. Três delas para retirar as balas que atingiram o fígado e o joelho (dois tiros).

Um dos disparos atingiu a cabeça da criança, que na época tinha 2 anos. Até hoje, a bala não foi retirada. Ela está alojada na cabeça e a mãe não sabe o que fazer. Depois de um ano de tratamento no Hospital Estadual e muitos exames, os médicos acharam melhor deixar como está, mas não descartam a possibilidade de complicações futuras, segundo Adriana.

Além de uma bala na cabeça, o filho carrega também um projétil na perna. Segundo a mãe, depois dos tiros o filho passou a cair com freqüência quando corre. Algo que não acontecia. Em um dos tombos machucou a cabeça e o menino teve de dar pontos.

Mas a desgraça não pára por aqui. Não bastasse um, Adriana teve dois filhos baleados no mesmo dia. Enquanto o menino levava cinco tiros, uma filha de 11 anos era atingida por outros seis. A exemplo do irmão, ela também é obrigada a conviver com a presença de um objeto estranho dentro do corpo. A menina carrega uma bala no joelho e, segundo os médicos, se o projétil foi retirado, ela corre o risco de perder os movimentos da perna. Segundo Adriana, a filha não consegue dobrar a perna. Ela vive reclamando das marcas que tem na perna, provocadas pelos tiros, e sempre pergunta se elas vão demorar para desaparecer.

Tanto a menina quanto o menino passaram por tratamento psicológico, mas os efeitos do tiroteio continuam bem presentes na mente e no corpo de cada um.

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