“Já são quase 40 anos de envolvimento!”, diz um homem apaixonado, entre uma e outra baforada de cigarro. Mas, depois de tanto tempo, o desgaste acabou sendo inevitável e a relação, que se arrastava há sete anos na mediocridade, exigiu uma atitude radical. O jeito foi abandoná-la - decisão que não durou um mês – para, depois, o artista plástico Percÿ Coppieters voltar, sob a condição de não ser mais o mesmo; exigindo dela, a arte, a mesma postura.
Para vencer a monotonia e a repetição da cópia, Percÿ abriu mão de manuais de auto-ajuda e devorou livros de arquitetura e cultura japonesa. Foi lá, entre curvas do arquiteto Oscar Niemeyer e formas de artistas abstratos japoneses, que ele encontrou a leveza para reinventar sua arte e conseguir, enfim, exprimir “o máximo possível com o mínimo de formas”, diz.
Sem tinta e pincel - os principais pivôs da longa crise – o artista se muniu de estiletes, gilete, pregos, martelos e passou a colar figuras geométricas sobre telas emolduradas, conferindo volume e equilíbrio na disposição irregular dos desenhos. “Não dá para dissociar a arte da moldura, ela completa o trabalho, veste a obra”, afirma.
Menos inflexível, mas não menos exigente, atualmente o artista até permite uma ou outra pincelada da velha tinta, hoje na função de mera coadjuvante. “Comecei a misturar pastel seco, tinta óleo e colagens. É uma outra expressão desse mesmo trabalho”, diz Percÿ, insaciável. “Eu estou explorando, vendo o que mais posso tirar dessa expressão para conseguir encontrar a simplicidade, sem perder a minha identidade. Ainda falta pesquisa até achar a solução”.
Apesar da busca pelo novo, o artista não negou completamente sua história. “Na verdade, estou recriando meu próprio trabalho de monotipia. As bases do que faço hoje são as linhas e as formas, as mesmas bases da monotipia”, explica Percÿ, um exemplo de anos dedicados à gravura.
Os recursos utilizados - basicamente folhas de foam board e passe-partout – também foram trazidos do passado, do trabalho com moldura realizado até hoje. “Eu vislumbrei no uso desse material com a colagem a possibilidade de uma tridimensionalidade e de uma maior exploração das formas”, explica Percÿ.
Ele ainda dá uma dica a quem deseja fugir à mesmice e sugere um passeio para fora de casa para conversar com outras artes. “A dança, por exemplo, está muito próxima ao desenho; ambos têm a mesma volúpia. A produção também se relaciona com o próprio teatro. Pintar não deixa de ser um teatro silencioso que você executa”, analisa.
Reflexões
“Foi um pacote de coisas. A própria insatisfação pessoal aliada à falta de onde expor foram trazendo infelicidades que abateram a criatividade. Realmente eu pensei em parar”, afirma Percÿ, analisando os últimos sete anos de um envolvimento com a arte, intitulado por ele mesmo como medíocre.
A citada ausência de lugares para exposição é vista por Percÿ como uma falha da própria categoria. “Deveria haver um interesse dos próprios artistas em manter uma cooperativa ou um clube para incentivar a produção e a exposição dos trabalhos. Mas a guerra de egos impede a união”, coloca.
Fora a Galeria Municipal, os poucos espaços que existem, como bancos e restaurantes, acabam banalizados, na visão do artista. “Muitos levam trabalhos ruins a esses lugares, o que acaba queimando o espaço. Hoje, são poucos os artistas que desejam expor nesses ambientes”, afirma.
Para Percÿ, o próprio termo “artista plástico” é vulgarizado pela classe. “Para diferenciar o trabalho de um pintor de um artista plástico, é preciso que a pessoa tenha um envolvimento com a arte, um volume expressivo de trabalhos, um domínio da técnica. Ou então todos os artistas acabam sendo nivelados por baixo”, opina.
O Poder Público também é alvo das críticas do artista. “A política cultural já foi melhor. Hoje há mais incentivos para o teatro e para a dança, deixando grandes lacunas para as artes plásticas”, diz.
Fomentando a vontade de compartilhar essa “nova forma de expressão”, mas sem a ansiedade do início da carreira, hoje, aos 53 anos, Percÿ pensa em mostrar seu trabalho apenas se surgir um espaço adequado. “Quando expor, vai ser no menor lugar possível para o menor número de pessoas possível que tenham um envolvimento com a arte e me ajudem a decifrar esta recente criação”, espera.
O artista também pensa em coordenar workshops sobre colagem. “Motivado a ensinar, vou me reaprender. Porque enquanto dou alguma coisa a alguém, eu retiro o melhor de mim”, afirma.
Enquanto amadurece as novas idéias, Percÿ segue à frente de uma franquia de molduraria, que, em breve, deve receber outras obras além das suas. “Minha vontade é que aqui seja um novo espaço para o trabalho dos artistas”, coloca.