E se um dia ou uma noite um demônio ou um anjo se aproximasse de você e dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda mais uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de pequeno e grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência!” O que você faria?
Você se lançaria no chão e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio ou o anjo que falasse assim, ou diria a ele: “você é um ser bendito, um ser iluminado, nunca ouvi nada de mais divino e prazeroso!” Mais ou menos com estas palavras, Nietzsche nos apresenta em seu livro “Gaia Ciência” um desafio. O desafio de imaginarmos como seria a nossa reação se tivéssemos que viver de forma infinita exatamente a vida que conduzimos até agora e continuamos a conduzi-la. Esta é a essência da idéia do “Eterno Retorno” na filosofia nietzschiniana.
Se nos colocarmos nesta situação e fizermos um exercício sério de imaginação seremos levados ao questionamento sobre o que exatamente estamos fazendo no aqui e agora. Não é um exercício para um arrependimento (ou não) do que já fizemos, mas de um despertar para o que somos e estamos realizando. A visão do “Eterno Retorno” em Nietzsche possui, antes de tudo, a idéia central de que realmente vivenciamos algo de constante em nossa existência: o devir. Em outras palavras, a vida é um eterno criar e recriar, mas apesar de significar mudança, não se modifica nunca.
Deste círculo não há como fugir. A vida possui um ritmo: criação e recriação. Surgimos na vida modificando, portanto, esta existência. À medida que nos desenvolvemos, somos modificados e modificamos nosso universo. Esta é a imagem formal da vida, ou seja, a sua simples aparência, o seu formato. A existência está formatada em um movimento de criação e recriação. O desafio colocado por Nietzsche, porém, diz respeito a algo mais profundo: o conteúdo desta constante transformação.
Este conteúdo não se reduz ao simples ser e fazer, mas “o que” estamos sendo e fazendo. Para o filósofo, é necessário viver o momento presente, este criar e recriar com um conteúdo que realmente nos satisfaça, mas que seja de tal modo satisfatório que poderíamos vivê-lo eternamente sem o desprazer da monotonia. Para isso, se faz necessário um profundo mergulho no espaço e no tempo, no aqui e agora, no que realmente vivemos. Isso significa contemplar todos os aspectos de nossa vida: meu interior, minhas relações interpessoais na família, no trabalho, na escola, faculdade, grupo de amigos, em nossa cidade principalmente, mas também em nosso país.
E depois desta contemplação nos perguntar: tudo isso mereceria ser repetido? Caso não seja, a única alternativa é nos perguntar, como podemos transformar todas estas dimensões para que elas possam, no seu conjunto, se tornar uma verdadeira obra de arte. O grande objetivo é a consciência de que somos artesãos e nosso artesanato é a vida.
Um artesanato fatal e muito sério, pois dele depende não somente nossa felicidade, nossa realização como pessoa, nosso prazer em viver, mas também a felicidade, realização pessoal e prazer de viver dos outros. Observação séria, constatação crítica e principalmente atitude podem fazer com que sejamos condutores do constante fluir que é a vida.
Fundamental é perceber que, além do constante criar e recriar, a vida não é fragmentada, mas tudo está, de certa forma, entrelaçado em um sistema. Em outras palavras, a nossa vida privada, os nossos comportamentos individuais e a nossa realização pessoal estão sempre relacionados à política, ou seja, à prática social, às nossas relações em nosso coletivo. Esta vinculação existe porque todos nós vivemos em uma comunidade (koinonia), ou seja, em uma cidade.
Quem se sente capaz de viver fora desta desvinculação é um deus, um animal, ou possui uma condição financeira tão privilegiada que lhe permite viver alienado das influências que uma má administração pública provoca em toda as dimensões da vida. Mas nós, seres bio(sócio)culturais, não podemos dividir a ética individual, a política e a própria definição do que é ser humano. Isso quer dizer que meu comportamento egoísta e individualista, a lei de levar a vantagem agora, pode fazer com que eu tenha um momento de prazer ou comodidade particular, mas com certeza leva à desmoralização e ao enfraquecimento do bem comum.
Não nos ajuda em nada a constatação de que existe corrupção no meio político, se nós mesmos não obedecemos às leis de trânsito, não reciclamos o lixo, não cuidamos de nossas ruas e praças, não exigimos mais da administração local e da ação do legislativo. E se um dia ou uma noite um demônio ou um anjo se aproximasse de você e dissesse: “Esta vida em Bauru, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda mais uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de pequeno e grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência!” O que você faria?