O cearense Karim Aïnouz nunca foi operário, mas, aos 18 anos de idade, estava no ABC paulista, para “fazer greve”. Estudante de arquitetura na UnB, Aïnouz via na efervescência do movimento sindical daqueles 80 um indício de que “o mundo ia mudar, os paradigmas iam ser diferentes”.
Aos 40, no lançamento de seu segundo longa, “O Céu de Suely” – que chega às locadoras sem ter passado pelos cinemas de Bauru -, Aïnouz enxerga sua geração como “o último respiro desse tipo de desejo utópico”. Foi aos que “buscam uma utopia” que o cineasta dedicou seu filme, na sessão competitiva do Festival do Rio, em setembro do ano passado, do qual saiu premiado melhor filme, diretor e atriz (Hermila Guedes).
Nas pesquisas para a produção de “O Céu de Suely”, entrevistando jovens, Aïnouz sentiu-se “apavorado” com a idéia de que restaram às novas gerações apenas dois tipos de utopia. “Existe o desejo de ter uma casa, um trabalho, essa utopia do dia seguinte”, descreve, ou as de viés “sobrenatural”.
Com a trajetória da protagonista Hermila - os atores de “O Céu de Suely” emprestam seus nomes aos personagens -, o diretor quis demonstrar que “é possível ter uma utopia aqui e agora, que as pessoas podem mudar suas condições de vida”.
Volta ao sertão
Hermila (a personagem) tenta mudar a sua a partir do momento em que retorna de São Paulo, para onde migrara, a Iguatu, no sertão cearense. Ela tem um filho pequeno, um ideal de relação amorosa, que rapidamente se dissolve, e sobretudo o sonho de encontrar um lugar que lhe pertença.
“O problema dela não é ser pobre. Ela tem um sonho e quer alcançá-lo de qualquer maneira. Eu quis falar de gente comum que tem problemas existenciais”, diz o diretor. A escolha de enfocar “gente comum” afastou do elenco caras carimbadas da TV. “Como o que interessa nesse filme é a trajetória emocional de um ser humano, ele só funciona se o espectador encarar o personagem como um ser humano, e não como alguém que viu na capa da revista de celebridades.”
Ao abordar o sonho individual - a crença na utopia- de uma personagem comum, Aïnouz esbarra também em outros assuntos que lhe interessam tratar no cinema: “Queria falar do deslocamento, implodir a questão da migração como via de mão única e falar também de ética”, afirma o diretor.
Elogiado pela crítica brasileira e internacional desde sua estréia em longas, com “Madame Satã” (2002), Aïnouz recusa o rótulo de autor de cinema de arte e afirma ser “contra criar campos antagônicos”, como os que opõem o cinema de autor ao cinema comercial ou o cinema como um todo à TV.