Umas das frases mais repetidas pelos bauruenses nos últimos anos é de que “a cidade está abandonada”. Longe de representar um exagero, a afirmação encontra comprovação no estado precário dos prédios públicos existentes no município. Hoje em dia é difícil encontrar algum que não esteja mau conservado, depredado ou, no mínimo, pichado.
Exemplo recente de descaso com o patrimônio da população foi veiculado pelo Jornal da Cidade há quase duas semanas. A edição de 6 de março estampava na primeira página a imagem do resultado das ações de vândalos na sede da prefeitura, órgão máximo do poder público no município.
As pichações no Palácio das Cerejeira, que tanta revolta causaram nos cidadãos bauruenses, não são um caso isolado. Atualmente, é difícil apontar um edifício público que não tenha sido alvo de depredações. Uma das raras exceções é o posto do Poupatempo, que se encontra na mesma situação da época em que foi inaugurado, em setembro do ano passado.
Para Nilson Guirardello, professor do departamento de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e ex-presidente de Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Município (Condepac), os atos de vandalismo refletem o descaso (tanto da população quanto dos governantes) em relação ao patrimônio público.
“Esse é o tipo de situação em que uma coisa chama a outra. Se alguém tivesse tomado um atitude logo que a primeira pichação apareceu no Palácio, talvez as pessoas não se animassem a fazer novas depredações. Como, porém, ninguém tomou providência, outros criminosos se acharam no direito de repetir o ato”, acredita.
O grande problema, porém, é que as pichações ocupam um lugar meramente superficial nessa história toda. Quem anda pelo interior do Palácio das Cerejeiras logo percebe que as carências do prédio vão muito além dos rabiscos feitos pelos marginais.
A sede do poder municipal foi inaugurada em 1965, durante a gestão de Nuno de Assis, e tem instalações para lá de arcaicas. A grande reforma realizada no local ocorreu no início dos anos 80, durante o primeiro mandato de Tuga Angerami, que na época construiu um terceiro pavimento no prédio.
Todas as remodelações feitas desde então não seguiram um projeto definido. A história das diversas mudanças ocorridas no palácio pode ser contada pelas inúmeras marcas deixadas nas paredes pelos ventiladores de teto e pela rede de transmissão elétrica.
Os diversos setores que funcionam no local são separados por divisórias de madeira. Poucas salas têm ar-condicionado e nenhuma delas é adaptada para receber deficientes físicos. Vários pontos do edifício apresentam infiltrações. Em um dos banheiros do 2.º andar a situação é tão grave que as paredes já estão verdes de tanto limo.
Reformas estão fora de cogitação, pois o setor responsável pelos serviços de manutenção da prefeitura não dispõe de recursos e funcionários para empreendimentos de grande vulto. O departamento de construção e serviços gerais (DAO) da secretaria Municipal de Obras conta com menos de 60 funcionários em seus quadros para zelar por aproximadamente 210 prédios públicos existentes na cidade.
Enquanto as reformas não vêm, usuários e funcionários são obrigados a conviver diariamente com o desconforto das instalações do Paço Municipal. Não por acaso, depois da inauguração do Poupatempo, a presença do público diminuiu bastante na sede da prefeitura. Hoje em dia, grande parte da população prefere se dirigir ao Centro, para usufruir de cerca de 250 serviços municipais (além de outros 250, oferecidos por outras esferas da administração pública), em instalações confortáveis e bem conservadas.
Atualmente, a unidade de Bauru do Poupatempo realiza aproximadamente 3.500 atendimentos diários. Na medida em que as pessoas vão se dando conta da agilidade e da eficiência do serviço, a tendência é de que a procura pelo local aumente ainda mais. Até setembro, aos responsáveis pela unidade acreditam que o número de usuários ao dia suba para 6.000.