Às vezes, as idéias transformadoras aparecem disfarçadas. Primeiro foi uma palestra sobre os meios de comunicação e o nosso dia a dia. Durante o debate notei maravilhada que uma parcela da sociedade encontra-se em uma crise de percepção. Existe um desejo por alterações fundamentais em nossos valores. Estudos sociológicos comprovam esse anseio. Entretanto é diferente quando você se depara com esses indicadores tão perceptíveis em pessoas sentadas ao seu lado. Em seguida, uma amiga falando de algumas mudanças em sua maneira de pensar, concluiu dizendo: sou criativa e ponto final... Na verdade, ela estava fazendo o Manifesto da Pessoa, uma declaração do seu soberano direito de auto-descoberta e auto-afirmação. Entendi bem o que ela dizia, pois passei por isso há muitos anos atrás, embora essa metamorfose tenha acontecido de forma quase subterrrânea. No meu caso foi a leitura do livro “A Conspiração Aquariana” de Marilyn Ferguson, uma jornalista norte-americana. Uma poderosa rede de intelectuais estava agindo e provocando modificações no mundo.Alguns estavam destruindo elementos-chave do pensamento ocidental e possivelmente rompendo com a continuidade da História, afirmava ela. Às vezes, as idéias transformadoras podem aparecer também no formato de um inofensivo compêndio. O antigo modelo não funciona mais para mim, pensei. O livro respondia a uma série de minhas indagações, então uma silenciosa revolução teve inicio. A crise por mim vivida era grande e de dimensões intelectuais, morais e espirituais e me acompanhava desde a graduação. Passou? Não passou, foi resolvida lentamente com a ajuda da homeopatia e de um médico que antes de pedir testes de laboratório ofereceu calor humano e auxílio. O paradigma dessa medicina está na busca de causas, pois a mente é o fator primário em todas as doenças. Bem-estar não será ministrado às colheradas, ele vai emanar de uma matriz: o corpo-cérebro. O referido médico foi assunto de nossa conversa. A minha amiga disse: não é que o doutor tinha razão? E eu respondi: essa é a pior parte. Ele sempre tem razão.
Os seres humanos estão atravessando uma crise mundial complexa. Ela afeta a saúde, a economia, a tecnologia, a política, o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e as nossas relações sociais e afetivas. A humanidade passou por grandes modificações, porém, esse momento, não têm precedentes. Estamos nos defrontando com a possibilidade de extinção da raça humana e da vida no planeta. Além da poluição atmosférica, nossa saúde está ameaçada pela água e pelos alimentos contaminados por produtos químicos tóxicos. São problemas intimamente relacionados e interdependentes.
Fritjof Capra citou a frase do I Ching “ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. Há movimento, mas este não é gerado pela força... ele é natural, surgindo de forma espontânea. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo introduzido.”
Nós estamos nesse ponto de mutação vivenciando alterações que tanto poderão harmonizar o mundo como destrui-lo. Normas e hábitos culturais são pressupostos não questionáveis norteando vidas. Costume é como nevoeiro, ele sempre se desfaz dando lugar a um dia claro. Está acontecendo agora: depois da tempestade – de 1968 – são visíveis os contornos de uma nova postura cultural. Modelos como casamento, família, sexualidade, além das instituições sociais e políticas foram abalados. Mesmo não existindo formulas para introduzir mudanças, a resposta aparecerá através da atitude para solucionar os problemas mais urgentes. Parece-me que as idéias transformadoras estão em nossas cabeças e a chave das mutações em nossas mãos.
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte e coordenadora do curso de pós-graduação lato-sensu Design de Interiores: Interfaces, do Iesb