Cultura

Tragédia grega contemporânea

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Paixão e inveja movem a humanidade há séculos. Eurípedes já trazia esses elementos na tragédia grega “Hipólito”, escrita no ano de 428 a.C. Inspirado nessa história de mais de mil anos, o Núcleo Dois Tempos de Teatro montou o monólogo “A Fedra”, mas sob uma visão contemporânea. O espetáculo será apresentado nesta noite, às 20h, no Teatro Municipal. Antes, às 10h, atriz e diretora ministram uma oficina de interpretação gratuita no próprio local, com inscrições para 20 pessoas.

O texto, escrito por Beatriz Carolina Gonçalves, faz um recorte da obra de Eurípedes, colocando Fedra num interrogatório de contexto atual, onde uma mulher de meia-idade revela o delicado relacionamento com seu enteado, explorando o tripé: paixão-rejeição-vingança. “Estes temas são muito recorrentes na sociedade”, coloca a diretora, Suzana Aragão.

Em cena, a heroína vivida por Selma Pellizon dialoga com a luz, representante do algoz que a interroga. O cenário de Bira Nogueira cria um ambiente de interrogatório não-realista e confina a personagem num tapete cheio de pontas, acompanhada de uma cadeira fúnebre. A idéia de luto é reforçada pelo figurino de Marcela Donato.

Diferente das tantas “Fedras” trazidas ao teatro, esta apresentada hoje sobrevive à culpa. “Ao contrário do mito, nesta montagem, a Fedra não se envergonha de sua paixão. Ela convive com a culpa e sobrevive no final”, diz Aragão.

Baseada na interpretação realista, a encenação também carrega temperos do expressionismo. “Até por conta da estrutura fragmentada do texto, não há o recurso de envolvimento do realismo. Quando o espectador começa a se envolver com uma cena, ela é entrecortada por imagens e recursos de flash back”, explica a diretora.

Percurso

O Núcleo Dois Tempos de Teatro foi criado em 2003 com o objetivo de confrontar e colocar em diálogo as três gerações que compõem o grupo. Enquanto Selma Pellizon acumula mais de 30 anos de teatro, Suzana Aragão trabalha profissionalmente com a arte desde a década de 90. André Grynwask, responsável pela trilha sonora de “A Fedra”, está formado em artes cênicas há apenas dez anos.

Buscando o diálogo cênico entre diferentes gerações, os três passaram a pesquisar textos até se deparar com “A Fedra”, “que vinha ao encontro do que estávamos buscando”, diz Aragão. Com a montagem, o grupo promoveu uma temporada de ensaios abertos na Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo, em junho de 2006.

A estréia oficial foi realizada no dia 7 de setembro do mesmo ano no Teatro dos Satyros, em São Paulo e, em novembro, “A Fedra” ficou em cartaz no Centro Cultural São Paulo. “A recepção da crítica e do público tem sido boa. Muitos acham que a peça toca, provoca, tem sua beleza na simplicidade”, diz a diretora.

Contemplado em dezembro de 2006 pelo Programa de Ação Cultural (PAC), da Secretaria de Estado da Cultura, o espetáculo recebeu R$ 30 mil para realizar 11 apresentações no Interior de São Paulo. Pensando na localização e no grande número de universitários, Bauru foi incluída no roteiro, junto com as cidades de São José dos Campos, Araçatuba, Ribeirão Preto e Marília.

Serviço

Espetáculo “A Fedra”, do Núcleo Dois Tempos de Teatro, será apresentado hoje, às 20h, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos na bilheteria do teatro por R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia-entrada). Mais informações:

(14) 3235-1072.

____________________

Mitologia

Na mitologia grega, Hipólito é filho de Teseu e de uma amazona, que herdou da mãe o gosto pela caça e pelos exercícios violentos. Cultuava Artemis e menosprezava Afrodite. Ela, enciumada, vinga-se fazendo com que Fedra, a segunda esposa de Teseu, se apaixone por ele. Rejeitada, Fedra acusa Hipólito de ter tentado violentá-la. Teseu, então, pede a Posídon que castigue Hipólito. Quando conduzia seu carro junto ao mar, os cavalos do jovem são assustados por um monstro marinho e batem contra rochas. Ao ter conhecimento da morte de Hipólito, Fedra, desesperada, se mata. (Fonte: Wikipédia)

Comentários

Comentários