As presidentes de associações de moradores de Bauru padecem sem estar no paraíso. Vivendo em locais extremamente pobres e marginalizados, elas assumem para si os problemas existentes nessas comunidades. Como verdadeiras mães adotivas, elas acabam cumprindo um papel que, em princípio, deveria caber ao Estado - ou seja, garantir às camadas carentes da população o mínimo de condições de sobrevivência.
Com criatividade e força de vontade, elas unem a comunidade e encontram soluções que ajudam a amenizar a miséria dos bairros marginalizados. Criam hortas comunitárias, incentivam programas de geração de renda e organizam mutirões para realizar melhorias na vizinhança.
Em alguns casos, o trabalho é tão produtivo que acaba indo além do mero assistencialismo. Se alguns bairros da periferia de Bauru contam atualmente com asfalto, rede de água e esgoto ou mesmo eletricidade, isto se deve, em muito, à dedicação das presidentes de associações de moradores.
Há aproximadamente 15 anos, nenhuma rua do Parque Real, zona oeste da cidade, contava com pavimentação. “Naquele tempo era um horror. Quando chovia, o barro invadia as casas e as pessoas ficavam com lama até a altura das canelas”, recorda Vera Lúcia Pascoalino, 55 anos, ex-presidente da associação dos moradores da Vila Dutra, bairro situado nas redondezas.
O asfalto só chegou depois de inúmeras reivindicações feitas pela entidade à prefeitura. Na época, porém, a ausência de pavimentação era apenas um (talvez o menor) dos problemas do Parque Real. Nenhuma casa do bairro contava com água encanada, por exemplo. Em pouco tempo, a falta de saneamento básico acabou prejudicando a saúde das crianças do lugar.
A situação se tornou ainda mais preocupante no dia em que a direção da escola estadual (EE) Luiz Carlos Gomes, localizada na Vila Dutra, resolveu realizar exames de fezes nos alunos (na época, o colégio recebia crianças de 1.ª à 4.ª série). “Chegamos a encontrar cinco diferentes espécies de vermes em algumas amostras”, recorda Tânia Mara Carvalho Baptista, que na época dirigia o local.
“É que elas vinham de famílias muito pobres. Os pais precisavam sustentar a casa e não tinham tempo para cuidar dos filhos”, recorda Pascoalino. Sozinhas, muitas crianças passavam o dia pelas ruas, sem ter o que fazer. A situação preocupou a líder comunitária.
Com apoio da diretora Tânia, Pascoalino iniciou um projeto de hortas comunitárias, que chegou a envolver 183 crianças de quatro bairros da região. Elas passaram a freqüentar um programa de reforço escolar nos horários contrários ao da escola. Além disso, recebiam acompanhamento médico no núcleo de saúde da Vila Dutra.
“De uma hora para outra, a evasão escolar acabou. Todas queriam se dedicar ao máximo na escola para poder participar do projeto”, recorda Pascoalino. Um dos grandes atrativos da iniciativa estava no fato de as crianças poderem levar os vegetais que cultivavam para a casa, contribuindo assim com a alimentação da família. “Elas gostavam muito de trabalhar na horta. Algumas até choravam quando chegava a época de férias”, garante Baptista.
De acordo com Jussara Reis Prá, professora do departamento de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS), iniciativas como essa são comuns entre as lideranças femininas. “É como se elas tivessem sido chamadas a cumprir uma função assistencial que o Estado não exerce. Talvez isso se deva ao fato da mulher ainda ocupar um papel de mãe em nossa cultura”, acredita.
Mas o trabalho à frente das entidades é cansativo e muitas líderes acabam desanimando. “Isso aqui não é tarefa para qualquer uma. Além de não receber salário, a gente enfrenta todo tipo de humilhação no dia-a-dia. Você precisa agir e pensar como mãe, sempre. Se for fria e calculista, não consegue levar uma associação adiante”, acredita Diva Dias, que é líder comunitária no Jardim Solange, na zona sudoeste de Bauru, há mais de 14 anos.
____________________ Sem tempo...
Cerca de três anos atrás, a associação dos moradores do Núcleo Joaquim Guilherme estava parada. A entidade necessitou de um toque feminino para poder voltar à ativa. “Naquela época, eu era assessora parlamentar na Câmara Municipal. Em ocasiões anteriores, eu havia prestado uma espécie de apoio jurídico para o pessoal do bairro. Por essa razão, eles vieram até a mim e propuseram que eu entrasse como cabeça na chapa”, recorda Maria Isabel Adão Barbosa, 41 anos, a escolhida para reavivar a associação. No princípio, ela titubeou. “Mas o pessoal continuou insistindo. Eles disseram que só reabririam a associação se eu aceitasse ser presidente”, afirma. Barbosa não teve escolha. Em 2005, ela assumiu oficialmente o comando da entidade.
“Como fiquei desempregada, tinha tempo de sobra para me dedicar às tarefas da diretoria”, diz. O mandato foi marcado por diversas conquistas para o bairro. “Com muita briga, conseguimos melhorar o transporte coletivo e fazer com que a prefeitura limpasse os terrenos abandonados”, orgulha-se. Apesar de produtiva, a gestão acabou sendo relativamente curta. “Durou apenas um ano e meio. Acabei arrumando emprego e já não podia me dedicar integralmente à associação. Além disso, eu precisava cuidar do meu marido e do meu filho. Pelo menos conseguimos reestruturar a associação. Agora, ela já pode caminhar sozinha”, diz.