O “boom” do álcool que toma o Brasil, neste mês mais em pauta do que nunca devido à visita do presidente americano George W. Bush ao País, pode trazer inúmeras vantagens econômicas e políticas mas também problemas de grandes proporções para a população. A avaliação é do geógrafo Ruy Moreira, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), um dos mais respeitados nomes do País na área.
Jornal da Cidade – Como o senhor avalia o interesse cada vez maior de outros países em utilizar o álcool como combustível, como já acontece no Brasil?
Ruy Moreira – Para a economia brasileira, pode ser uma grande coisa, mas uma grande coisa como foi o ciclo do açúcar no passado. É como se fosse um novo ciclo, mas com os usineiros no lugar dos antigos senhores de engenho. Na minha avaliação, para o povo brasileiro, não para a economia, a conseqüência pode ser parecida com o que foi a economia açucareira nos tempos da colônia. No Brasil, historicamente, a usina sempre foi vinculada à terra, quem é proprietário da usina é dono da terra. Se gerarem a produção de etanol, a partir do álcool, no volume que a demanda internacional está pedindo, a partir já da demanda dos Estados Unidos, vai ser preciso triplicar, quadruplicar a área ocupada com o plantio da cana. Embora a produtividade do plantio de cana no Brasil seja alta, para essa nova conjuntura ela pode ser baixa. Isso significa, para um efeito imediato, a intensificação do monopólio da cana no Brasil.
JC – Isso ameaça outras culturas, ou seja, a cana tomaria o espaço de outras plantações?
Moreira – A segunda conseqüência é essa, com implicações sobretudo nos produtos alimentícios. Foi o que aconteceu na época da ditadura. Outras lavouras ficam ameaçadas, então já temos aí um terceiro desdobramento, que é a elevação do preço para o consumo interno desses produtos que estão perdendo espaço para a cana nas fazendas.
JC – A comida tende a ficar mais cara?
Moreira – Sim, a soja tende a ficar mais cara, o milho, a carne e assim sucessivamente. Foi o que já aconteceu nos Estados Unidos, onde eles tiram o etanol do milho. O milho foi deslocado para a produção de energia, então a energia começou a competir na produção de alimentos - no caso do milho - disputando preço. O que aconteceu? O preço subiu e a situação alimentícia nos Estados Unidos piorou.
JC- E a questão da terra?
Moreira - Na medida em que há o monopólio da cana e com ele o monopólio da terra e na medida em que o capital norte-americano interessado vai começar a entrar nesse ramo, vai haver uma multiplicação de indústrias sucroalcooleiras com americanos no comando. Imagine o capital estrangeiro entrando no setor da agroindústria, controlando a indústria sucroalcooleira, o que, historicamente significa controlar também a terra. Então começa a haver uma desnacionalização da indústria e da terra por causa da economia do açúcar. Ou seja a coisa tem dois lados. Do ponto de vista da balança comercial brasileira, da valorização da moeda, do superávit, da estabilização das relações internacionais do Brasil, tudo isso é positivo.
JC – Há tempo para se escapar dessa “armadilha”?
Moreira – Não sei como vai ser a negociação do Lula com o Bush e não sei depois como vai ser a negociação do governo com os usineiros. Tudo isso vai depender de como o Lula vai conduzir a questão. Eu ando muito cético em relação a isso, tenho a impressão que ele está cedendo demais e não sei se vai conseguir ter uma postura soberana diante dos Estados Unidos. Agora tudo vai depender muito da imprensa e do movimento da sociedade civil do Brasil, porque isso vai mexer com o nosso bolso, vai mexer com a nossa capacidade de consumir muitos produtos agrícolas e industriais e também com as nossas florestas. Ou seja, vamos pagar o preço do consumo e vamos pagar o preço ambiental.