Não bastassem os cinco séculos de assalto às riquezas da América Latina e Caribenha, a velha Europa, em sua insaciável voracidade, busca a privatização da água. Bem ao modo da Bechtel-United Utilities na Bolívia, os chamados Acordos de Livre Comércio buscam por fim às restrições dos vários estados nacionais e exigem compensações por regras que limitem pretensos lucros de corporações mundiais. São principalmente a Aquamundo e RWE da Alemanha, a Nestlé da Suíça, a Vivendi e Suez da França, a Water e Biwater da Grã-Bretanha.
A atuação predatória da Nestlé em São Lourenço é um exemplo da continuidade do saque europeu à América. Bem da natureza que deveria bastar para todas as pessoas, animais e vegetais, a água tem sido alvo de monopólio dos predadores de sempre para que possam desperdiçar mesmo que venha a faltar a alguém, ou melhor, a multidões.
A OMC (Organização Mundial do Comércio) busca regulamentações para que a água seja igualada a mercadoria. “investimento e gestão privados estão desempenhando, e devem desempenhar, um papel crescente”, declara documento do Banco Mundial. A seus devedores, o Fundo Monetário Internacional induz a assinatura de acordos que exigem vantagens comerciais sobre serviços de acesso à água, inclusive a privatização. Está em curso uma tentativa de condicionamento da abertura aos produtos agrícolas do hemisfério sul em troca da privatização da água. Incomoda a passividade da ONU.
Daí a importância do Contrato Mundial da Água proposto pelo Manifesto de Florença e pelo Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
Grandes empresas são as maiores consumidoras e poluidoras mas pagam taxas menores pelo consumo da água. A conta é paga pelos consumidores domésticos. A poluição acaba sendo imputada às populações pobres empurradas pela especulação imobiliária para a periferia, ocupando locais de proteção de mananciais, onde não há coleta de lixo.
Nossa sociedade perdulária está produzindo montanhas de lixo que ameaçam a vida de povos indígenas contaminando as fontes de água como, por exemplo em Araucanía onde habitam há séculos indígenas Mapuches do Chile.
As fumigações promovidas pelos Estados Unidos, com a desculpa do combate à droga, tem envenenando os rios da Amazônia, inviabilizando a sobrevivência de vários povos indígenas. A Campanha da Fraternidade 2007 chega em boa hora, ainda em tempo de salvar a Amazônia dos desmatamentos e queimadas, e nossos mananciais da ganância dos históricos saqueadores.
O uso indiscriminado de agrotóxicos e adubos químicos tem dizimado a fauna de muitos rios, deixando populações sem água potável.
Urge ouvir o alerta secular da velha índia Cree: Um dia, a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem branco a reverência pela sagrada terra.
A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião