O “eterno paraninfo do Aeroclube de Bauru”, Hendrich Kurt, dava asas a mais do que planadores. Fazia da tela e das tintas vôos de inspiração e técnica. A partir de amanhã, uma exposição no Templo Bar vai mostrar a faceta pintora de Kurt. São 15 telas que retratam lugares e impressões do volovelista em suas andanças pelo mundo até chegar a Bauru.
A mostra com curadoria da artista Viviane Mendes acontece em abril não por acaso: este é o mês do aniversário de Kurt e também do Aeroclube de Bauru. Mendes conta que a idéia surgiu quando ela ganhou dez quadros pintados por Kurt de um dos funcionários do Aeroclube. “O Paulinho (Paulo Francisco da Silva, mecânico de planadores há 28 anos e amigo de Kurt) me trouxe as telas que estavam em estado lastimável. Cuidei delas e com o tempo e através da história do ‘seu’ Kurt, eu me apaixonei e quis mostrar esse lado do volovelista à cidade”, diz.
Os trabalhos são datados a partir da década de 30. Dentre as telas, Mendes aponta uma das quais crê tenha inspiração brasileira, nacionalidade que Kurt, alemão, adotou. “‘Ponte em Vitória’, é bem nacional”, aponta Viviane. Um dos quadros que mais reflete Bauru é uma aquarela, onde as “tesouras de madeira” que sustentam o hangar do Aeroclube, na época de sua construção: estão retratadas.
“Ticino” é mais um dos quadros que chamam a atenção, em pinceladas expressionistas a cidadela à beira do lago Maggiore, na Itália, é forte e cheia de alma. “Quando penso e olho para a história do seu Kurt e seus quadros, vejo um artista completo que une três fatores: o espírito, a técnica e o talento”, afirma a curadora.
Uma curiosidade: os quadros de Hendrich Kurt ficarão expostos em um pequeno fragmento do Aeroclube, que tanto fez parte de sua história em Bauru. As portas de madeira que fechavam o hangar foram adquiridas há algum tempo e fazem parte da decoração do Templo Bar.
Biografando
O sobrinho e afilhado de Hendrich Kurt, João Alexandre Widmer, herdou do ancestral o amor pelo volovelismo. Ele, que cedeu à exposição dois dos primeiros quadros pintados por Kurt, contou à reportagem do JC parte da história do tio.
Hendrich Kurt era um líder operário de vinte e tantos anos na República de Weimar, na Alemanha. Socialista, foi perseguido pela polícia alemã após manifestações contra o Nacional Socialismo, partindo para a então Tchecoslováquia. De lá, com um violão às costas, Kurt perambulou pela Europa. Era esportista, praticava entre outras modalidades esqui e natação. Por essas habilidades, conheceu em um acampamento na Suíça, Doris, tia de Widmer e sua futura companheira, incentivadora artística e profissional.
Kurt foi levado à casa da jovem em Zurique, onde ficou hospedado junto à família Widmer. O alemão trabalhava ilegalmente na Suíça com esportes e artesanato; por sua vez, Doris era desenhista técnica. Ambos começaram a se interessar por pintura, mais ou menos em 1933. Desse tempo são as primeiras pinturas de óleo sobre tela, com espátula e a bela tela “Ticino”. Foi na região italiana, em um vilarejo chamado Ronco, que o casal produziu com profusão seus primeiros trabalhos.
Em 1939, quando o Nazismo ganhava força na Europa, a situação do alemão sem documentos se complicou na Suíça. A alternativa era fugir, o destino foi o Brasil. O navio partiu de Gênova, na Itália, trazendo Dóris e Kurt, ele apenas com um salvo-conduto do governo Getúlio Vargas. Com o casal, algumas telas e um cão. Kurt trabalhou como mecânico de precisão em São Paulo, de lá, em 1942, o casal veio para Bauru.
A vinda de Kurt e Doris a Bauru estava ligada a uma gravidez trompária que quase levou Doris à morte.
O médico alemão que atendeu o casal foi a ponte para que Kurt e a mulher se transferissem para Bauru. O Aeroclube já existia e com ele o desejo de implantar uma escola de planadores. Kurt, artesão, mecânico, esportista e aviador, era a peça ideal. Desde então, aqui foram desenvolvidos inúmeros planadores, uma vida e tantas outras pinturas. O resto é história...
“Meu tio foi um homem versátil, suas telas tinham vida porque eram permeadas de sentimento. Nelas podemos ver o conflito interior, o amor crescente por uma nova pátria e por uma nova cidade. Também o medo de ser novamente perseguido e a saudade”, diz Widmer.
• Serviço
Exposição com as obras de Hendrich Kurt de amanhã a 14 de abril no Templo Bar. O endereço do Templo Bar é rua Benjamin Constant, 1-34. A partir do dia 15, a exposição passa para o Bar do Aeroclube. Mais informações: (14) 3223-3493.