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A última história


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Al-Kindi, filósofo árabe que viveu em Bagdá entre 796 e 873 d.C., estava sempre presente nas histórias de meu avô materno Salim Simão. Vovô Salim era sírio de Damasco, ourives de profissão e alquimista de coração. Já não tenho oportunidade de ouvir suas narrativas há muito tempo, mas, lembro-me de uma metáfora de Al-Kindi, de inspiração estóica, contada por ele, equiparando a vida a uma travessia de barco.

Durante a viagem todos temos tarefas específicas a realizar e o capitão pára em vários portos. Neles todos descem; alguns passageiros resolvem suas pendências e voltam ao barco sem desviar sua atenção em nada além da resolução daqueles assuntos. Estes passageiros ao voltarem ao barco escolhem sempre os lugares mais amplos e confortáveis o que lhes permitirá chegar com tranqüilidade à pátria de origem.

Outros passageiros adquirem coisas que julgaram dever levar consigo na viagem de volta ao seu mundo verdadeiro. Estes, além de ocupar lugares mais apertados e desconfortáveis, têm de se apinhar com as coisas que trazem consigo e com isso se descuidam das tarefas e do objetivo maior daquela viagem. Pior, têm ainda que cuidar dessas coisas a maior parte do tempo, ficando tristes quando algumas delas se perdem. No entanto, se realmente existe um motivo para nos entristecermos, dizia meu avô, este deveria ser o da separação de nosso verdadeiro lugar, de nossa verdadeira pátria, onde não há carências nem desgraças, nem perdas, nem coisas inalcançáveis.

Para evitar a tristeza é preciso baixar o nível de nossos desejos e expectativas. Se quiséssemos que coisas que se corrompem não se corrompam; que coisas que retrocedem apenas avancem e que aquilo que não cessa de se transformar torne-se estável, estaríamos, então, querendo da Natureza o que não é próprio dela e quem quer o que não está na Natureza quer o que não existe.

Passados trinta anos, lembro meu avô ter-me dito que todas suas tarefas no barco estavam concluídas, que estava prestes a chegar ao seu destino de origem e procurou mostrar-me que na senda da vida, mesmo que pensássemos que a morte seria um mal capaz de nos entristecer, isto não é verdade. Enganam-se os que pensam assim. O mal é apenas o medo da morte e o tem aqueles que, estando no barco, vivem a angústia de abandoná-lo, pois, se apegam em demasia as coisas que trazem consigo. A morte, em si mesma, nada mais é que o acabamento da nossa natureza. Sendo a definição de homem: ser vivo, racional e mortal, se não houvesse a morte não haveria homem, porque se não é mortal, não é homem.

Seria um absurdo que aquilo que somos fosse um mal ou nos levasse a tristeza, pelo contrário, o mal e a tristeza aparecem quando queremos ser o que não somos.

O homem não deve entender a morte como um fim, mas como uma transformação própria da natureza.

Ao meu avô, que povoa meus sonhos, minha saudade.

O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica - FEB - Unesp-Bauru

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