Ao invés de pipa ou videogame, gravador, microfone, câmera e máquina de escrever. Com apenas 12 anos, Galileu Guilherme não liga para o que os colegas falam e persegue, desde cedo, o sonho de se tornar jornalista. Por enquanto, o âmbito de atuação é restrito. Ele produz informativos, está sempre por dentro das notícias e também atua como defensor dos interesses dos moradores do condomínio residencial Bosque da Saúde, localizado na Vila Industrial.
Logo na portaria já é possível perceber a popularidade do “repórter” comunitário, aluno da 5.ª série do ensino fundamental. “Vamos conversar com o Galileu”, digo. O porteiro abre um sorriso, já imaginando o motivo da presença da reportagem do JC e explica o local exato de trabalho do jornalista-mirim.
No caminho, parada para conversar com uma moradora. “A senhora conhece o Galileu?”, pergunto. “Ele é famoso no condomínio. Anda para cima e para baixo com uma câmera na mão, engajado nos problemas do condomínio e reivindicando melhorias”, responde a dona de casa Silmara Karina Schiavo Alves, de 35 anos. “Quando alguém tem um problema, procura logo ele porque sabe que vai resolver”, completa a vizinha, confessando que ele é respeitado até pelo zelador.
Chegando ao endereço marcado, Galileu recepciona a equipe, pede desculpas pela bagunça e por não ter conseguido terminar de preparar o “estúdio”, um quarto onde ele e a amiga Elisabeth Kraus deixam fluir a imaginação, apresentando e produzindo telejornais de brincadeira.
O jornalista-mirim conta que semanalmente produz informativos, em folha de sulfite, com notícias sobre o condomínio e cola em postes da vizinhança. “Eu não tenho nenhum para mostrar para vocês agora porque estava preparando um para amanhã. Nos postes acho que também não tem nenhum porque, além da chuva, tem gente que rasga”, se lamenta.
Apesar de produzir material impresso, o garoto revela que seu sonho é trabalhar na televisão. “Vou fazer faculdade com dinheiro deixado pela minha avó e pretendo ser âncora do Jornal Nacional”, sonha alto. “Sei que vai ser difícil mas não vou desistir”, completa.
Por enquanto, as câmeras e microfones de Galileu são réplicas, confeccionadas por ele próprio. “Estou pensando em comprar uma de verdade, produzir algum material e, se eu flagrar alguma coisa importante, quem sabe vender à imprensa”, conta, revelando tino para os “negócios”.
Ele conta que sua paixão pela profissão começou há dois anos, imaginando como seria interessante a vida dos profissionais que correm o dia inteiro atrás de notícias. “Desde então, vivo o jornalismo o dia todo”, diz.
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Paixão
A paixão pelo jornalismo não é compreendida por funcionários da escola onde Galileu Guilherme estuda e nem pelos colegas. “Meu professor já tem uma coleção de microfones porque cada vez que levo um para colégio, ele pega. Já os meus amigos dizem que sou louco e que eu deveria estar brincando”, revela.
José Israel dos Santos, que conhece Galileu há sete anos, não condena o “desinteresse” do amigo pelo lazer. “No final é bom porque ele avisa todo mundo da rua sobre as coisas que estão acontecendo”, afirma.
Apesar da paixão, o repórter-mirim tem uma preocupação. “O jornalismo divulga muita coisa. Sem ele, as pessoas não saberiam do que acontece no mundo e que, muitas vezes, têm a ver com elas. Mas tem gente que não gosta de jornalista. Só espero não apanhar de ninguém”, finaliza, pensando no futuro.