Há duas semanas, na coluna que escrevo para a Folha de São Paulo, fiz ligeiros comentários sobre a nova proposta do governo para a Educação. A resposta rápida dos leitores foi uma boa surpresa para mim, por ver que as pessoas estão antenadas com aquilo que considero o mais dramático problema nacional.
O Plano de Desenvolvimento da Educação do ministro Fernando Haddad apresentado à Nação pelo presidente Lula no dia 15 de março último é uma pequena revolução, capaz de abrir novos horizontes para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Pela primeira vez se vê revelada, corretamente, a ênfase no suporte ao Futuro (a educação de crianças e jovens) correspondente à que tem sido dispensada ao Passado (a Previdência).
Quando me refiro ao “mais dramático problema nacional”, não estou exagerando. O diagnóstico do setor educacional brasileiro no que respeita ao ensino na pré-escola, no fundamental e no técnico mostrou a crueldade com que desdenhamos o futuro e a formidável incompetência com que temos tratado a educação no Brasil. A falta de acompanhamento da qualidade do ensino e as falhas de avaliação ao longo de todo o aprendizado escolar mostram um país em que pobres alunos e infelizes professores produzem analfabetos funcionais, incapazes de compreender o significado de uma frase simples e absolutamente ignorantes da mais comezinha tabuada.
Num mundo onde o motor do crescimento é o conhecimento, nada pode ser mais preocupante do que a qualidade do ensino que oferecemos às nossas crianças e jovens. Recusando-lhes um mínimo de conhecimento que lhes dêem as condições de igualdade de oportunidade na disputa dos postos de trabalho, recusamos, também, a legitimidade da economia de mercado. O PED, gestado nesse governo, contém os ingredientes para realizar uma pequena revolução com grandes conseqüências para o futuro do país. Somando objetivos claros e seleção pelo mérito, com avaliação segura, competição e incentivos adequados para mover as prefeituras municipais, mobilizar os diretores das escolas , professores e alunos , o Programa tem todas as condições para cooptar a vontade nacional em torno da eliminação do analfabetismo e a superação do subanalfabetismo que nos acompanha há tanto tempo.
Ao mostrar as falhas de avaliação ele põe o dedo no cerne da questão, mostrando que na educação o problema é muito mais de gestão do que de recursos. Com todo o dinheiro que se põe no setor não era para existirem os números terríveis que o Presidente mostrou no lançamento do PED, com um percentual enorme de alunos da oitava série incapazes de dizer o resultado de uma soma ou de uma subtração simples de dois algarismos! Ou ainda sem condições de entender o significado de uma sentença simples de duas ou três linhas...
O Brasil não pode continuar nesse estado desastroso quando o que vale no mundo é o conhecimento, um novo mundo onde os fatores de produção não são mais o capital fixo e a mão-de-obra principalmente, mas o capital tecnológico. O caminho é a educação. O que entusiasma nesse programa é que a educação não é vista como uma coisa oportunística para atender objetivos econômicos de curto prazo. Importante será a mobilização dos responsáveis pelas escolas , diretores e professores , atração dos gestores municipais e estaduais num processo longo em que se fixam metas , se investiga o que está acontecendo , controla os resultados e se cobra permanentemente a melhor utilização dos recursos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento