Esta semana a imprensa em geral e os hipócritas em particular saciaram-se de comentar o aumento de salário proposto para o presidente Lula. Prevaleceu, como de há muito, a espetaculosidade dos textos que buscam o sensacionalismo, o feérico, o retumbante, em detrimento da análise fria e objetiva. Não vem ao caso se Lula merece ou não ganhar os R$16.000,00 propostos; ou mesmo os cerca de R$8.000,00 que recebe. Não vem ao caso se está sendo um bom ou mau presidente. O viés de estabelecer uma remuneração por mérito ao presidente da República é hipócrita ou imbecil.
O fato inconteste é que, tirante o ocupante eventual do cargo, o presidente da República exerce a mais alta magistratura do país. Queiramos ou não é a maior autoridade do país. Esta importância não coaduna com um mísero salário de R$ 8.000,00. Talvez nem com o de R$ 16.000,00 proposto.
De outra banda, o eleitor ao votar deveria fazer uma avaliação de desempenho dos candidatos a presidente, governador, senador, deputados, prefeitos e vereadores. Ao eleger (ou reeleger) está passando ao candidato uma procuração para em seu nome decidir a respeito dos destinos do país, do Estado, da cidade. Lula foi reeleito com esmagadora diferença sobre o candidato derrotado Alckmin. Portanto, salvo engano, a população aplaudiu seu desempenho.
E se aplaudiu seu desempenho, por que o avaliado não deve ter aumento? Quem além do povo, tão cultuado e mimoseado pelos políticos na época das eleições, poderia decidir a respeito? Porque é politicamente correto dizer que quem tenha cargo público ganha muito? Porque é politicamente correto criticar o salário de ministros, de embaixadores, de juízes, de diretores de estatais? As críticas não passam pela peneira de tramas mais largas.
Daí porque as atuais críticas têm todo o sabor e o aroma da hipocrisia que comanda o país, mais do que o próprio presidente da República. Aliás, comanda o mundo. Querem exemplos? O que senão hipocrisia explica o comportamento do presidente Bush, frente à retirada das tropas do Iraque, ou à solução dos imigrantes ilegais na América do Norte.
Querem mais? As recentes declarações do Papa Bento XVI (com seu sorrisinho meio maquiavélico, meio nazista), a respeito do segundo casamento, do uso dos meios contraceptivos e a posição mais do que hipócrita da Igreja frente à utilização de células-tronco para a solução de inúmeras doenças que assolam a humanidade.
Querem mais? A posição do PFL (recuso-me a chamá-lo democrata) de questionar a perda de mandato aos políticos que trocam de partido após a eleição. Não foi de outra forma que nos últimos 30 anos os pefelistas e seus amiguinhos do ex-PDS, ambos farinha do mesmo saco chamado Arena, cooptaram os eleitos para formar suas maiorias.
Foi assim com Sarney, assim com Collor, assim com Itamar, assim com o duplo governo de FHC.
Porém, em nome da hipocrisia e só em nome dela, acabo de saber que a proposta de aumento ao Presidente da República, foi retirada pelo Presidente da Câmara dos Deputados, que, pelo visto, também caminha a passos largos rumo à hipocrisia reinante.
Que falta que faz Ruy Barbosa para lançar um novo mote: “ou se instaure a veracidade ou nos 'hipocritizemos' todos”. Com o devido perdão aos puristas pelo neologismo que acabo de criar.
Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799